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Quando Estreia A Ghost Story de David Lowery?

A Ghost Story de David Lowery vem acompanhado de excelentes referências. A minha revista de cinema favorita, a Sight & Sound, consultou 188 críticos internacionais e escolheu este filme como o 11.º melhor de 2017 (vejam a lista completa aqui). Calma! Eu não sou dos que prende-se aos críticos de filmes - eu adoro o Batman V Superman, convenhamos. Por exemplo, o Good Time de Josh e Benny Safdie é um filme interessante mas, para mim, não merece o sétimo lugar (e como é que é possível terem menosprezado o The Handmaiden?). Mas 188 é um número interessante, quase estatisticamente representativo, e a S&S é uma revista que gosto. A minha curiosidade foi acicatada.

David Lowery realizou filmes como o inqualificável Upstream Color, que nunca estreou comercialmente em Portugal) e Pete's Dragon, que nunca vi. Pela amostra poderão perceber tratar-se de um realizador pouco convencional, na narrativa e na escolha ecléctica de modelos de história. O primeiro é uma viagem surrealista na ficção científica. O segundo é entretenimento Disney. Gosto disso. Gosto de realizadores que não se coíbem de dançar entre a arte pela arte e o divertimento pop. A Ghost Story está firmemente no estilo do primeiro mas menos desconexo e fragmentado que Upstream Color. 

O título diz tudo: esta é a história de um fantasma, fantasma esse que veste o "tradicional" lençol branco com dois buracos no lugar dos olhos. Começamos com um casal apaixonado e em início de vida conjugal, protagonizados por Casey Affleck e Rooney Mara. E depois saltamos para a vigília de um fantasma, preso à casa do casal. Vemos o tempo a avançar e somos obrigados a experimentar o silêncio observador do espectro. É um filme reflexivo e filosófico, preocupado em apresentar o mistério e não tanto a descortiná-lo. Parado e lento, a câmara permanece como observadora distante e documental de uma estranha viagem - existe uma cena já "famosa", de quase cinco minutos, de Rooney Mara a comer uma tarte (Manoel de Oliveira ficaria orgulhoso). Parco em palavras, somos obrigados a procurar os hiatos narrativos, a preencher os pensamentos e as falas não ditas. Narrativa exigente para o espectador, não deixa, contudo, de nos prender no enigma tão bem construído pelo realizador.

Filme intrigante e belo, uma surreal viagem pela mortalidade e pela saudade. Para quando a sua estreia? 

Filmes de 2017, os que mais gostei - pódio um

Os critérios que me ajudam a escolher os filmes de um ano são simples: os que gostava de ter na prateleira de minha casa para um dia rever (dos que vi, claro, e faltam ver alguns, portanto isto pode mudar). Dito de outra forma: os que mais gosto. Sem critérios intelectuais (OK, um ou dois, se quero ser totalmente sincero). Muito coração e muita emoção. Parece lamechas mas é assim mesmo. Não sou especialista em Cinema e, portanto, não vou pôr-me a jeito para comparar cromos e conhecimentos.  Se bem que essa de "especialista" em qualquer Arte tem o que se lhe diga (não fui eu quem o disse mas um homem muito melhor que eu, Tolstoy).

Dito isto, dentro dos que gostei mesmo à séria, tive de os dividir em três pódios, ao estilo dos jogos olímpicos.  Um para Bronze, outro para Prata e, claro, Ouro. Hoje vamos ao primeiro, ao de ouro. Cliquem na imagem para ler o que escrevi sobre cada um deles.

Se calhar deveria ir ao Platina. Hoje percebem porquê. Dos quatro filmes abaixo, é quase impossível escolher os que mais aprecio. Os que mais me emocionam. Quase. Não totalmente. Se fosse forçado, mesmo forçado, com ferro a ferver e tortura chinesa, tinha de pender para dois: o absurdamente perfeito e maravilhoso A Criada e, claro, aquele que, finalmente, passou para o grande ecrã a minha personagem favorita de ficção, Diana, a Mulher-Maravilha.

  
 

Filmes de 2017, os que mais gostei - pódio dois

Os critérios que me ajudam a escolher os filmes de um ano são simples: os que gostava de ter na prateleira de minha casa para um dia rever (dos que vi, claro, e faltam ver alguns, portanto isto pode mudar). Dito de outra forma: os que mais gosto. Sem critérios intelectuais (OK, um ou dois, se quero ser totalmente sincero). Muito coração e muita emoção. Parece lamechas mas é assim mesmo. Não sou especialista em Cinema e, portanto, não vou pôr-me a jeito para comparar cromos e conhecimentos.  Se bem que essa de "especialista" em qualquer Arte tem o que se lhe diga (não fui eu quem o disse mas um homem muito melhor que eu, Tolstoy).

Dito isto, dentro dos que gostei mesmo à séria, tive de os dividir em três pódios, ao estilo dos jogos olímpicos.  Um para Bronze, outro para Prata e, claro, Ouro. Se calhar deveria ir ao Platina mas... bem, depois explico.



Hoje vamos ao segundo, ao de prata. Cliquem na imagem para ler o que escrevi sobre cada um deles.

 

Filmes de 2017, os que mais gostei - pódio três

Os critérios que me ajudam a escolher os filmes de um ano são simples: os que gostava de ter na prateleira de minha casa para um dia rever (dos que vi, claro, e faltam ver alguns, portanto isto pode mudar). Dito de outra forma: os que mais gosto. Sem critérios intelectuais (OK, um ou dois, se quero ser totalmente sincero). Muito coração e muita emoção. Parece lamechas mas é assim mesmo. Não sou especialista em Cinema e, portanto, não vou pôr-me a jeito para comparar cromos e conhecimentos.  Se bem que essa de "especialista" em qualquer Arte tem o que se lhe diga (não fui eu quem o disse mas um homem muito melhor que eu, Tolstoy).

Dito isto, dentro dos que gostei mesmo à séria, tive de os dividir em três pódios, ao estilo dos jogos olímpicos.  Um para Bronze, outro para Prata e, claro, Ouro. Se calhar deveria ir ao Platina mas... bem, depois explico.

Hoje vamos ao terceiro, ao de bronze. Cliquem na imagem para ler o que escrevi sobre cada um deles (excepto um, que esqueci-me de escrever. Processem-me! Não sou pago para isto!).

 

  

 

 

  


120 Battements par Minute (120 Batimentos por minuto) de Robin Campillo

Não sei se é de propósito mas o final do ano costuma ter estreias de filmes que acabam nas listas dos melhores do ano por vários "especialistas". É o caso deste 120 Batimentos por Minuto, uma história em tom documental sobre o movimento LGBT em França no início da década de 90, movimento esse especificamente focado na controle da disseminação da epidemia da SIDA. 

Estávamos num momento já avançado da propagação dessa doença e a comunidade civil e política tinha dificuldade em avançar com medidas e comportamentos verdadeiramente mitigantes. Quem sofria literalmente no corpo e na pele as consequências da doença viu-se, então, na necessidade de se organizar em grupos de intervenção que passavam a mensagem de forma veemente e directa, abordando fisicamente (sem violência) os responsáveis pelas políticas, pelos medicamentos, etc. Para isso, informavam-se ao ponto de transformarem-se em especialistas em farmacêutica e biologia, numa tentativa desesperada de se salvarem. Literalmente, tinham a própria vida nas mãos e lutavam contra todos os preconceitos que proliferavam na sociedade civil à época: que este era um problema exclusivo da comunidade LGBT e, portanto, os esforços para a resolução dos problemas era visto como mínimo.

O filme divide-se em dois momentos. O primeiro, filmado e contado de forma semi-documental, aborda este movimento e todas as medidas de intervenção social que usaram para fazer valer a sua perspectiva. O segundo, escolhe um dos casais desse grupo e foca-se na lenta deterioração do corpo de um deles, vitima da doença. Ambos estes "capítulos" são abordados de forma sentida e próxima, a câmara perto dos rostos. Esta tendência de realização foca-se na emoção e na força da intenção dos actores, que fazem todos um excelente trabalho.

Citando o Público "120 Batimentos Por Minuto" foi o filme-sensação da 70.ª edição do Festival de Cinema de Cannes, onde recebeu o Grande Prémio do Júri. A realização fica a cargo de Robin Campillo ("Les Revenants", "Eastern Boys"), segundo um argumento seu e de Philippe Mangeot, presidente da Act Up francesa nos anos 1990." Act Up é o movimento foco do filme e a história espelha bem o envolvimento próximo de quem produziu este filme. Existe experiência e olhos de quem sofreu de perto. 

Um filme verdadeiramente sentido e pungente sobre a epidemia da SIDA e sobre os esforços da comunidade LGBT para alertar a sociedade civil para este problema.

Kingsman, The Golden Circle de Matthew Vaughn

Querem saber qual o filme baseado em BD mais BD que passou nos cinemas neste ano da graça de 2017? Não precisam de ir mais longe do que este maravilhosamente hedonista Kingsman, the Golden Circle, sequela do também delirante Kingsman: The Secret Service de 2014. Regressam (quase) todos os intervenientes do primeiro, desde realizador a actores, com algumas adições valiosas na pele de Channing Tatum, Halle Berry, Jeff Bridges, Pedro Pascal, Julianne Moore e... Elton John (a fazer dele próprio). Se este último nome não vos convence da loucura que é este novo Kingsman, então não estão preparados para ele.

Tudo é hiperbólico sem deixar de ser ao estilo do primeiro. Cenas de acção que, de tão únicas, ficam para sempre associadas a Kingsman. Câmara "real", a acompanhar os movimentos vertiginosos dos protagonistas como se colada às suas costas. Rodopio, cambalhotas, hiperviolência, sexo, nada aqui é acção destilada e pronta a ser consumida por petizes inocentes. Isto é para adultos com sentido de humor e com cérebro desligado (não estou a ser irónico e é antes um elogio). Existe um lado de não-estamos-a-levar-isto-muito-a-sério-e-estamos-aqui-a-nos-divertir. E isso transpira em cada cena de acção escabrosa, cada enredo descabelado, cada décor tão berrante que poderia ter nascido do cruzamento entre BD de Jack Kirby e o 007. Delirantemente pop e muito, mas mesmo muito, divertido. 

Não pensem daqui tirar grandes lições de vida ou reflexões profundas sobre a razão de ser da Humanidade. A entrega do realizador é toda para um entretenimento sem desculpas, delirante, divertido e, digo-o uma vez mais porque é mesmo preciso reforçá-lo, adulto. Os adolescentes vão gostar mas isto não é para vender bonecos à lá Disney. Não se lava a mensagem nem o enredo com Omo Mais Branco para incluir o maior número de pessoas sensíveis a tudo e mais alguma coisa. Há ofensa. Há politicamente incorrecto. Há diversão (para quem gosta destas coisas).

Sim, é o filme de BD mais BD do ano. E graças a Deus por isso. Parabéns a Matthew Vaughn.

Star Wars VIII, The Last Jedi de Rian Johnson

(aqui há spoilers)

Como escrever sobre algo que se gosta desde o ínicio da década de 80? Desde que se sabe que o favorito é o consensual episódio V e o muito menos consensual III? Sabe-se que existem fãs e fanáticos mais acirrados, que devoram todos os pormenores da mitologia (como os compreendo, sou assim com outras). Que devotam vida, secundam moral e ética. Que constroem imaginações alicerçadas em mundos imaginários de ficção científica. Como escrever sobre este novo episódio VIII, Os Últimos Jedi? Apenas de uma maneira: com verdade.

Rian Johnson foi ambicioso com este novo filme da eterna saga de Star Wars. Desviou-se do caminho já várias vezes trilhado, sem esquecer os toques de nostalgia que sublinhavam o anterior de J.J. Abrams. O realizador/escritor escolheu rechear o enredo e as personagens de metáforas que aludem à passagem de testemunho e ao abandono de alguns paradigmas da saga da família Skywalker. É exactamente com este "abandono" dessa importante família que Johnson sublinha qual a sua intenção e o seu legado para o universo criado por George Lucas. Este oitavo episódio é sobre, entre algumas outras coisas, a democratização da omnipresente Força. É sobre como qualquer ser pode descobrir os seus segredos e transformar-se num guerreiro Jedi. Essa intenção é sublinhada na protagonista Rey, não só pelo facto de descobrirmos que os seus pais não são "ninguém em especial" (leia-se, não são de linhagem nobre, não são parte do clã Skywalker - que também já não eram só nobres - vejam o episódio I) mas também no episódio surreal-soft da jovem numa gruta. Ao tentar descobrir quem são os seus pais, a sua própria imagem é reflectida, numa alusão que mais tarde ficará clara - ela não precisa de ninguém, de sangue ou de mestre para tornar-se numa Jedi e prosseguir esse legado.  Esta mensagem de inclusão, se não era clara por altura da revelação, é martelada de maneira pouco subtil na cena final, quando vimos uns jovens escravos a usarem os poderes telecinéticos dos Jedi.

Este episódio tem ainda outras mensagens poderosas e bastante actuais, como seja o elogio ao Vegetarianismo e Veganismo em alguns momentos curiosos. Chewie é "forçado" a não comer um pássaro já cozinhado quando os congéneres da vítima ainda vivos o confrontam com olhares "fofinhos". Luke ordenha umas "vacas" extra-terrestres numa plácida e bucólica paisagem mas sem disruptar a vida das mesmas (não estão domesticadas nem vivem em quintas). Quem salva a Resistência são umas raposas-diamante - elas são as únicas que sabem a saída de uma gruta que nem a tecnologia avançada consegue descobrir. 

Também existe uma mensagem anti-bélica na figura da personagem de Benicio Del Toro e na cidade-casino povoada por hiper-ricos que vivem em condições paradisíacas. Ou melhor, uma mensagem sobre quem lucra com a guerra e sobre quem contribuiu para que lucrem com a guerra. Sim, são os dois lados dela, quer os maus, quer os bons.

Existe um esforço para incluir mensagens profundas, esforço esse que é feito de forma mais ou menos interessante. Ao mesmo tempo, Rian avança a mitologia dos Jedi, da Força e da Star Wars, preparando-a e a nós para um futuro sem as rixas e contendas da linhagem Skywalker, manchada que está com tantos dos seus membros a sucumbir ao lado negro da Força. Essa conspurcação está bem patente na mais interessante das personagens desta nova trilogia: Kylo Ren, filho de Han Solo e Leia Organa. Adam Driver entrega-nos uma personagem trágica, marcada por traição, pela sede de poder, uma verdadeira força Shakespereana com os dias contados, porque o futuro da Guerra é outro. Adeus à tragédia filial. Venha a aventura inclusiva. 

Contudo, no meio de tanta renovação existe algo que falha. A história é gorda demais. Batalhas a mais. Pirotecnia a mais. Algo a mais para o que parece muito de intenção mas que falha na execução. Como se se ficasse apenas no esboço - o que é estranho sendo que o filme tem duas horas e meia (que, confesso com amargo de coração, já me estavam a cansar). Também posso falar da frenética construção de merchadising, de bonecos para vender, de personagens que têm um aspecto lindo ou fofo ou as duas coisas ao mesmo tempo mas cujo tempo em cena é nulo ou, havendo, é ténue, sem corpo, sem alma, sem diálogos, sem personalidade a não ser a do lugar comum (Phasma, por exemplo, Snoke, outro). Snoke morre sem ser pouco mais (por enquanto?) que um rol de frases feitas em filmes anteriores da saga. Admito que há que focar principalmente em Kylo Ren e, portanto, Snoke é apenas uma forma de percorrer esse caminho mas, ainda assim, não poderiam ultrapassar a tragédia de os vilões serem uni-dimensionais? Mas posso perfeitamente desculpar a construção de brinquedos porque desde cedo que esta saga também se assume como tal, mas sem um alicerce de história robusto, qualquer metáfora ou venda de produtos cai por terra (ou deveria, porque cheira-me que neste filme nada vai cair e tudo ir-se-á vender que nem pãezinhos quentes).

Adoro entretenimento. Adoro filmes pipoca. Adoro Star Wars. Sou fã mas não fanático. Outros há que amam muito mais que eu. Haverá os que se sentiram tocados por este episódio VIII. Força para eles. Eu, infelizmente, não. E gostava de fazer parte desse lado. 

Lucky de John Carroll Lynch

Será que existe uma idade certa para começar a pensar na morte, na mortalidade? Será que existe uma idade certa para começar a  temer a escuridão final, a incerteza do que se passa depois de fechar definitivamente os olhos? Será que existe um momento certo para a sabedoria que vem com a clareza da proximidade da morte?

Lucky de John Carroll Lynch, com Harry Dean Stanton num papel gigantesco, é um filme soberbo, uma peça de arte realista e poética. É algo que apenas o cinema pode ser. É um tratado de silêncios, de humor, de vida e de morte. É a história de um homem no fim dos seus dias, não porque tenha qualquer tipo de trágica doença terminal mas porque o corpo está a chegar ao fim do funcionamento, como uma máquina que já preencheu todos os dias da vida útil. É a crueza da natureza que "apenas" nos dá mais ou menos 80 anos para sermos qualquer coisa - feliz de preferência. Este homem vive numa comunidade rural dos EUA, circunscrevendo a vida a rotinas diárias de que gosta, sem ter perdido a curiosidade para a aprendizagem. Esta não é a história trágica de um velho solitário que encontra redenção nos últimos anos da vida. Antes é de alguém que viveu a vida sem sobressaltos e, aparentemente, sem arrependimentos. Mas, ainda assim, não quer deixar o mundo e sente saudades dele e do que um corpo jovem lhe permitia fazer.

O realizador escolhe uma abordagem quase europeia, cheia de silêncios que permitem ao espectador a absorção serena dos momentos. O código genético não deixa, felizmente, de ser americano e a história é contada de forma calma mas decidida, deixando-nos respirar e, principalmente, à obra. O também actor John Carroll Lynch parece ter aprendido algo dos melhores (David Lynch é actor neste filme) e consegue oferecer-nos uma realização discreta mas poderosa.

Lucky é, no que a mim diz respeito, um dos melhores filmes a estrear nas salas portuguesas em 2017. Verdadeiramente obrigatório!

The Square (O Quadrado) de Ruben Östlund

Ruben Östlund já tinha surpreendido com o maravilhoso Force Majeure, um filme sobre comportamentos primais em situações de perigo.  Três anos depois, volta a fazer o mesmo com este O Quadrado, parte do que poderia ser um díptico sobre a moralidade dos comportamentos humanos. Sobre a imagem que projectamos em condições civilizadas e aquilo que realmente somos quando confrontados com situações, extremas ou não, do nosso dia-a-dia. É também uma critica não muito subtil ao mundo da arte contemporânea, aos que vivem dela e aos que a produzem. Na junção orgânica destes dois mundos, somos forçados a entrar neste filme-instalação-de-arte, onde temos de nos questionar se seríamos ou faríamos diferente das personagens que nos aparecem no grande ecrã. 

O Quadrado é a história de um homem, curador de um dos mais importantes museus de Estocolmo, divorciado e pai de duas raparigas, que vive numa confortável qualidade de vida e possui comportamentos sustentáveis - tem um Tesla. O seu museu irá apresentar uma instalação de arte baseada num Quadrado delineado no chão. Dentro desse quadrado, a artista propõe o seguinte: naquele espaço não existem fronteiras nem diferenças entre seres humanos, e todos os que necessitaram de alguém ou de algo podem pedi-lo a outro e esse outro terá de satisfazer o pedido. Este poderoso pressuposto será alvo de uma campanha de marketing para a qual o museu contrata uma equipe de jovens publicitários, versados neste mundo moderno da net e da atenção fugaz.

Östlund equilibra de forma brilhante o enredo e a mensagem através de casos inusitados que, muitas das vezes, pendem para o hilariante. O realizador socorre-se do humor para sublinhar as diferentes situações, quer sejam desconfortáveis ou não. Por vezes, estica esse desconforto até ao ponto em que a vontade de rir desaparece e dá lugar a uma sensação de vergonha existencial - principalmente no maravilhoso jantar de inauguração da exposição. Sem qualquer tipo de artifícios de câmara ou de efeitos especiais, recorrendo apenas ao simples enquadramento, mise en scéne e edição, o realizador é veemente na apresentação de um conto moral, cheios de conotações que podem mesmo parecer pretensiosas. Os actores vertem para o ecrã toda a intenção da história, destacando-se o trabalho do protagonista, Claes Bang, mas também o aparecimento de dois actores mais conhecidos do público em geral (ou, se calhar, nem tanto), Elisabeth Moss (dos Mad Men e Handmaid's Tale) e Dominic West (do The Wire e 300).

Não tenham dúvidas de que estamos a falar de um dos grandes filmes do ano. Um conto moral cheio de humor e desconforto, como provavelmente todos os contos morais devem ser. Deve ser por isso (também) que venceu a Palma D'Ouro de Cannes em 2017.

Justice League de Zack Snyder (Liga da Justiça)

A que é que nos leva a paixão? 

Esperem!... Acho que já leram esta pergunta algures neste blog de cada vez que se começa a falar de algo sobre o qual será difícil ser objectivo. Ou, pelo menos, o objectivo que se deveria ser quando escreve-se sobre uma peça de arte ou de entretenimento. Nestas coisas da "crítica" todos temos um ponto de vista. O meu é de alguém que ama Banda Desenhada, lê-a há quase 40 anos, sempre foi apaixonado pela mitologia dos super-heróis e, principalmente, é alguém que adora a editora DC Comics. A Mulher-Maravilha é a minha personagem favorita de qualquer arte e a Liga da Justiça é uma das equipas destes personagens de ficção que mais me entusiasma. Portanto, seguem daqui para a frente por vossa conta e risco.

Dizer que os fãs esperavam há décadas por um filme deste grupo é usar a figura do eufemismo de forma eufemística. Se os filmes da Marvel foram um marco importante na passagem da BD à 7.ª Arte, para os que gostam da DC e do universo desta editora este é o Santa Graal (para mim foi antes o filme da Diana, mas adiante). Falamos dos maiores ícones da 9.ª Arte dos EUA. Falamos da reunião do Super-Homem (não pode ser considerado spoiler dizer que ele volta à vida), da Mulher-Maravilha, do Batman, do Flash, do Aquaman - e ainda do Cyborg (vamos ser claros, nada tenho contra a personagem mas não tem a mesma importância dos cinco primeiros). Durante duas horas vão poder ser entretidos pela dinâmica entre as personalidades destas seis figuras que se unem sobre a égide de uma ameaça global. E é esse um dos maiores méritos deste filme: o entretenimento. Se a seriedade e negritude do Batman v Superman vos fez impressão, então a Liga da Justiça é a antítese que precisavam (eu adorei os dois). se gostam de duas horas sentados numa sala de cinema com a cabeça desligada, então preparem-se porque este filme é para vocês. Argumento simples (talvez simples demais), directo, com uma ameaça que os heróis têm que derrotar depois de conciliarem as diferentes personalidades. 

E que personalidades. Essa é maior força do filme. As trocas de picardias e de miminhos entre as personagens são descontraídas, sérias quando necessário e, acima de tudo, ditas por personalidades únicas. Apesar do Batman sorrir mais do que o Batman deveria sorrir, é ele quem tenta motivar os seus companheiros de equipa a se unirem. Flash assume o lado humorístico e deslumbrado mas não deixa de ser um herói na busca da sua coragem. Aquaman é uma torrente (perdoem o trocadilho) de força bárbara e de masculinidade (talvez o mais diferente da versão da BD). Cyborg é um homem conturbado pelo seu aspecto físico e por poderes que desconhece e o perturbam. E a Diana é a cola que os une. Gal Gadot continua a deslumbrar no papel da Mulher-Maravilha, cada vez mais assumindo ser um dos maiores casting (se não o maior) de sempre em filmes de super-heróis. Por causa do sucesso do filme homónimo temos muito de Diana no filme e a Liga só tem a ganhar com isso. Ela é, tal como esta personagem deve ser, força, graça, determinação e, acima de tudo, compaixão e compreensão. É ela a líder que a Liga precisa e tem.

A história é épica, como todas as histórias da Liga devem ser. O vilão deveria ser mais complexo mas parece que a DC decidiu inflectir para o caminho da Marvel e dar mais atenção aos heróis e menos ao vilão. Ainda assim, somos presenteados com o passado do antagonista, que aparece contextualizado numa visão unida do universo dos super-heróis desta versão de cinema. Poderiam ter ido mais longe? Poderiam e muito, mas para quem acha que estas coisas devem ser servidas de forma parcimoniosa, então têm o prato perfeito. 

Os detractores do estilo de Zack Snyder podem ficar descansados - dos quais não faço parte porque adoro Man of Steel e BvS. O factor Joss Whedon teve o efeito desejado. Existe mais humor e descontracção. A palete de cores é luminosa (o que podem confirmar comparando os trailers pré e pós contratação de Whedon). Ainda assim, a assinatura de Snyder não está completamente ausente. Existe, abordada muito ao de leve, uma temática transversal às personagens: os progenitores dos membros da Liga. Todos têm uma relação ou situação conturbada com os pais, o que é sublinhado em mais do que uma circunstância. Nota-se existir um linha narrativa mais profunda relacionada com esta temática mas que, infelizmente, não é explorada o suficiente. É francamente pena.

Sim, adorei o filme mas nem tudo são rosas. O maior problema é o bigode do Super-Homem. Sim, eu não me enganei a escrever. Quando fizeram refilmagens no verão passado, Henry Cavill trabalhava já no Missão Impossível, onde usa um bigode que não podia cortar. Esse bigode é apagado digitalmente e nota-se - muito. Outro problema, também relacionado com os efeitos digitais, é o uso desnecessário dos mesmos. Quando é que os produtores de grandes blockbusters irão aprender que um pôr-do-sol é mais belo quando verdadeiro e não feito por computador? Os directores de fotografia estão ali para isso. Não será difícil encontrar um bom pôr-do-sol ou, faltando, um ambiente realista capaz de veicular o peso emocional da cena. Num filme desta envergadura e com este orçamento estas duas falhas são grandes demais para passarem despercebidas e serem desculpadas. 

Um filme divertido e entretido em que as personalidades são o forte. Um enredo simplista mas que funciona melhor do que estava à espera.

PS - Não se esqueçam de esperar pelas duas cenas pós-crédito que são, ao mesmo tempo, um gigantesco presente para os fãs da DC e uma preparação para o próximo filme da Liga.

Thor Ragnarok de Taika Waititi

O que faz um filme dos estúdios da Marvel? São sempre de entretenimento puro e pop. Diversão a rodos. Complexidade moral no mínimo essencial. Personagens divertidos e com conflito interno q.b., o suficiente para que o enredo avance. Imagens claras e límpidas, bem iluminadas, de cores primais suaves e primaveris. E, claro, carradas de humor. Tudo cozinhado para saírem do forno umas duas horas de puro prazer quase, quase acerebral. Nada de mal com isso e este terceiro filme protagonizado pelo Thor de Chris Hemsworth é exactamente o produto dessa receita. Provavelmente estamos a falar do filme mais divertido e humorístico desta já longa série de longas-metragens dos estúdios da Marvel. Esse é o maior forte de Thor Ragnarok.

Do princípio ao fim, somos bombardeados por sketch de humor atrás de sketch de humor, com Chris Hemsworth a ser ele mesmo, um divertido surfista que veste a pele dos Deus do Trovão. O Loki de Tom Hiddleston é também ele um companheiro de pândega, o conflito entre os dois irmãos, tal como "shakespearianamente" explorado no primeiro desta série, agora um conjunto de oneliners e de momentos de humor dignos dos Three Stooges. Mesmo o aparecimento do Hulk acaba por descambar no buddy-movie, fazendo bom aproveitamento da parceria e conflito iniciados no primeiro filme dos Vingadores.  

Os vilões, a Hela de Cate Blanchett, o Surtur, o Grandmaster de Jeff Goldblum e o Executor de Karl Urban, cortejam ou assumem de forma descarada este lado leve e humorístico que parece ser a assinatura do realizador neozelandês, Taika Waititi, que chega a fazer a voz de uma das mais divertidas personagens do filme. Cate consegue fazer uma Hela tenebrosa mas, uma vez mais, incorre no problema dos vilões da Marvel: pouca complexidade. Goldblum é mais divertido e interessante como Grandmaster. Karl Urban é dos poucos a quem é dado algum (mas pouco) conflito emocional com que trabalhar (à semelhança do que foi feito com a personagem na BD, especificamente a escrita por Walt Simonson). 

Vou vos contar um segredo. Se ao lerem o que está acima não conseguem perceber o que eu acho do filme é porque o fiz de propósito. Até aqui não quis condicionar  a sua leitura ou sujeitar-vos a um lado menos favorável da minha opinião. Tudo o que escrevi pode ser entendido como um elogio ou uma crítica. Um paradoxo que representa o que senti. Foram duas horas divertidas mas este podia ser um filme do Thor como um episódio do Seinfeld (mas com piadas muito menos complexas). Cheguei a falar do primeiro, o de Kenneth Brannagh, e essa alusão não é despropositada. O conflito emocional entre Thor, Loki e Odin é aqui pouco mais que barulho de fundo e preparação para as piadas . O cliffhanger do segundo filme é resolvido em duas penadas, para dar espaço ao enredo de Hela e ao do mundo onde o Thor encontra o Hulk e a Valquíria (esta uma das mais interessantes personagens deste filme). O que parecia ser um plano desde o primeiro filme é descartado para dar lugar ao humor e ao deboche. Uma vez mais, nada de mal com isso, mas este não é o Thor do primeiro filme e muito menos o Thor da BD. Este é Chris Hemsworth a ser aquilo que é no mundo real: um surfista australiano, super porreiraço e pronto para a galhofa. 

Um dos mais interessantes aspectos de Thor Ragnarok é a homenagem, muito mais que merecida, a Jack Kirby, um dos mais importantes criadores do Thor na BD. Foi ele quem criou a escala cósmica e divina ao universo do Deus do Trovão. O seu maravilhoso estilo de desenho, nos décors e nas personagens, está presente, principalmente no mundo onde Thor encontra o Hulk. Nem que seja só por isso já este filme vale a pena ser visto pelos fãs da 9.ª Arte.

Thor Ragnarok é, provavelmente, o mais divertido dos filmes da Marvel. Cheio de humor, do primeiro ao último momento. Resta é saber se isso faz um filme do Thor. Pelo menos um da Marvel é sem duvidas. 

Blade Runner 2049 de Denis Villeneuve

Todos trememos quando soubemos que o clássico Blade Runner de Ridley Scott teria uma continuação, 35 anos depois e pelas mãos de um outro realizador, deste vez o Franco-Canadiano Denis Villeneuve. O primeiro faz parte da constelação dos filmes gigantes, um caso raro de confluência entre a crítica e os fãs. Adorado. Analisado. Um marco para uma geração e para a História do Cinema.  Como podem calcular, as expectativas eram elevadas.

Blade Runner 2049 é muito mais que um digno sucessor do primeiro. Teremos de dar tempo para assentar mas o trabalho de Denis e do argumentista Hampton Fancher (peça essencial neste filme e que já tinha trabalhado no primeiro) é, pelo menos, tão bom quanto o clássico. A história não é um revisitar do que já antes tinha sido dito mas um evoluir e aprofundar, à luz deste mundo moderno de iPhones e de internet, de isolamento facilitado pela tecnologia,  de mega-corporações monolíticas e predatórias. Neste mundo vagueia a personagem de Ryan Gosling, que tem aqui um dos mais interessantes papéis da sua vida (junto com Drive e Only God Forgives), na busca da sua identidade e de uma figura que é a peça central de todo o enredo (e que recuso-me a revelar quem é para que tenham a mesma surpresa que tive). Nessa demanda, vagueia pelas paisagens frias, chuvosas e distópicas da costa oeste dos EUA,  que se transformou, ao longo dos anos, em algo ainda mais aterrador e desumano. As ruas são linhas intermináveis de prédios uniformes, à volta de outros edifícios, de linhas fascistas e imperiais, que erguem-se na paisagem como um Olimpo de Trevas. 

O argumento centra-se nas personagens e na demanda e o cenário serve "apenas" como contexto. Ou melhor, como um mistério. O mundo é solidamente construído mas indagamos como se chegou ali, o que representa aquela desolação tão familiar. Essa familiaridade facilita a identificação da paisagem e da arquitectura mas, ao mesmo tempo, repugna-nos e assusta-nos. Este mundo pode ser o nosso num futuro próximo. 

À volta da busca que é o núcleo do argumento, outras buscas e outras personagens orbitam, como forma de sublinhar a principal. Uma das mais interessantes é a história de amor da personagem de Ryan Gosling, que nos proporciona momentos antológicos e que ficarão para a História do Cinema. Existe uma veracidade irónica nesta paixão que eleva os outros elementos do filme.  É muito mais que uma nota de pé de página. É o coração de Blade Runner 2049.

Villeneuve tem uma visão mais fria e kubrickiana que Ridley Scott. A limpeza de alguns espaços, a posição das personagens,  as cores primais e uniformes, o tempo frio de espera, contribuem para uma atmosfera tenebrosa e grávida de tragédia. Estamos sempre à espera da queda da espada.  De forma paradoxal, permanecemos longe e perto deste mundo, um conflito entre a emoção e o coração. O trabalho deste realizador continua a ser um dos mais interessantes da actualidade da 7.ª Arte, depois de Arrival, Selvagens ou O Homem Duplicado (filme inspirado no livro do nosso Saramago).

Cada actor é escolhido de forma exemplar, desde a interessantíssima Ana de Armas (que já tinha visto em Knock Knock), passando pelo temível Jared Leto, a sempre maravilhosa Robin Wright e o regresso do ícone Harrison Ford. Cada contribui e engorda o peso da tragédia. 

Blade Runner 2049 de Denis Villeneuve é um filme para ficar na História. A prova de que podemos voltar a visitar um clássico sem perder um átomo do que ganhamos com ele e, ainda mais raro, acrescentando ao original. Difícil, para mim, saber qual dos dois o melhor. É dar tempo ao tempo.

Logan Lucky de Steven Soderbergh (Sorte à Logan)

Steven Soderbergh estava afastado do Cinema. Disse mesmo que não queria regressar. Queria agora dedicar-se à TV. Produziu e realizou a brilhante série The Knick, focada num hospital em Nova Iorque no início do século XX. Pelos vistos algo ou alguém (ou os dois) conseguiram mudar as ideias ao realizador. E ainda bem para nós porque este Logan Lucky não seria o mesmo filme se não tivesse Soderbergh por detrás da câmara. Não é apenas ele a estrela da banda mas é mais importantes dos elementos. Os outros são os actores escolhidos a dedo. Uma passadeira vermelha de talento.

A história é terreno familiar para Soderbergh e companhia: um heist movie (todos reconhecemos Ocean's 11, 12 e 13). Mas desta vez podemos acrescentar um sub-género, ou melhor uma geografia e uma cultura: um heist movie passado no sul dos EUA e impregnado da cultura dessas latitudes. Actores e ritmo desenham a paisagem muito americana do estado de West Virginia, de Charlotte e das corridas de NASCAR. Aqui há hillbilly's, blue-color workers que fazem o que podem para conseguir mais um dólar na sua carteira. É a descrição de uma cultura, misturada com muito humor para, ao mesmo tempo, a ridicularizar e enaltecer.  Há espaço para tudo neste delicioso filme, divertido do início ao fim, com actores que não só são brilhantes como parecem estar a divertir-se à grande. 

Adam Driver é uma das estrelas do grupo, com uma interpretação controlada, serena e cheia de personalidade. Daniel Craig é quem atrai mais as atenções já que estamos a falar do mais recente James Bond numa interpretação que nada tem a ver com o agente secreto. Apesar de conseguir entrar completamente no mundo rural dos EUA fica como uma curiosidade excêntrica bem explorada. Channing Tatum é o protagonista e o fio moral da história mas, ainda assim, eclipsado por Driver e mesmo por Craig. Riley Keough continua a ser uma revelação, depois de American Honey e da série de TV The Girlfriend Experience, cada vez mais assegurando um lugar seguro nos canto dos actores corajosos.

Logan Lucky é resultado de uma colaboração deliciosa entre realizador e actores, de um capitão de equipa completamente seguro da sua arte, que sabe-se estar lá mas que deixa o diálogo e talento da representação respirar. Um filme a não perder.

MOTELx - Housewife e It!

O festival MOTELx 2017, a decorrer entre os dias 5 e 10 de Setembro, é um dos momentos cinematográficos mais esperados da rentrée e do Acho que Acho. Vamos lá estar e tentar vos dar uma apreciação dos filmes que teremos a sorte de ver. Passem por aqui todos os dias!


E com estes dois filmes acabou o meu MOTELx. Apesar de, uma vez mais, neste festival, ter visto filmes cada vez mais diversificados, estava com vontade de uma sobremesa mais familiar. Algo entre o gore, com sangue, vísceras e desmembramentos, e o "borra-cueca". E surgiram, para saciar essa fome, Housewife do turco Can Evrenol e o esperado It de Andy Muschietti. Dois filmes muito diferentes mas dentro do "verdadeiro" espírito de um festival de cinema de terror.

Comecemos por Housewife, cujo realizador esteve presente, pelo segundo ano consecutivo (no ano passado apresentou o seu Baskin), no MOTELx. Já no primeiro filme, Can tinha deixado bem clara a sua predilecção por gore extremo, com rituais sanguinários difíceis de digerir pelos que têm estômagos e sensibilidades fracos. Housewive, apesar de ser, como o próprio o diz, um slow-burner, assim que chegamos ao acto final, entremos de cabeça e sem rede no imaginário dantesco do realizador turco. Voltamos ao ritual satânico, voltamos ao uso da carne como barro na arte de cerimónias infernais. A história centra-se numa jovem que, na infância, foi testemunha de um acto demoníaco. Anos mais tarde, abordada por um culto/igreja, é recrutada para um destino escrito nas letras da Besta. Filme curto e directo, não se perde em narrativas paralelas ou momentos de reflexão existencial. Este é um filme que avança em crescendo até à revelação apocalíptica final. Um dos melhores que vi no MOTELx deste ano.

Um dos  filmes mais aguardados deste MOTELx e mesmo nas salas de cinema (onde estreia no próximo dia 14 de Setembro) é a segunda adaptação do livro It do renomeado escritor de terror Stephen King. A expectativa é sempre alta quando envolve este autor, as suas adaptações e um filme de terror que os críticos cedo começaram por classificar como "a ver". No que a mim diz respeito, fico sempre em pulgas quando oiço o rumor que "este assusta mesmo". Habituados que estamos a muitas sensações, a promessa, quase como droga, de sustos valentes, é uma perspectiva aliciante. It não decepciona. Assustador, despoja-se de alguns lugares comuns do ritmo e enredo de filmes de terror para converter os que poderiam não ser convertidos. É com a expectativa do espectador que Andy Muschietti brinca, permitindo alguns sustos verdadeiros e novos. Verdade que estamos de frente a um filme de orçamento pouco modesto (ou muito, se compararmos com outras produções do EUA), mas o realizador faz uso do mesmo, preferindo a escolha criteriosa de momentos a um espectáculo de sustos e gore desconcertantes mas, no final, inconsequentes. Constrói personagens e depois manda-os contra o monstro de serviço. E que monstro. A sua indefinição, aspecto real mas assustador, são o ganha-pão da narrativa aterrorizadora. 

Este Palhaço Pennywise é uma boa adição ao panteão a que pertencem Jason e Freddy Krueger, para citar os mais conhecidos. A escolha de permanecer na década de 80 tem uma razão narrativa (este é apenas o primeiro capítulo... mas auto-contido) e está dentro desta nova tendência de regresso ao passado, à nostalgia dos quarentões (como eu) que foram criados por uma dieta rigorosa de Craven e Carpenter. Quem diria que os Anos 80 seriam fonte de coolness

Dois filmes de verdadeiro terror e gore. Excelente forma de acabar o meu MOTELx. Para o ano há mais!

MOTELx - Cold Hell e Animals

O festival MOTELx 2017, a decorrer entre os dias 5 e 10 de Setembro, é um dos momentos cinematográficos mais esperados da rentrée e do Acho que Acho. Vamos lá estar e tentar vos dar uma apreciação dos filmes que teremos a sorte de ver. Passem por aqui todos os dias!



Comecemos pelo melhor: Cold Hell de Stefan Ruzowitzky Violetta Schurawlow. Notaram algo de diferente? Raramente (e mal) menciono o actor principal quando refiro a autoria de um filme. Contudo, como o próprio realizador o referiu na entrega do Prémio Melhor Longa de Terror Europeia / Méliès d'Argent do MOTELx de 2017, a sua protagonista é Cold Hell. É a sua presença física e psicológica, mesmerizantes e arrebatadoras, que monopolizam os olhos do espectador e motivam a narrativa.

Um assassino em série assola as ruas de Viena e a personagem de Violetta presencia as cenas finais da morte violenta de uma prostituta. O assassino enceta uma perseguição que os levará pelas ruas da capital austríaca, mas isso é apenas parte do enredo de Cold Hell. O verdadeiramente cativante é a personagem principal, "Özge, (...) uma jovem taxista de origem turca, estudante de noite e ambiciosa lutadora de Muay Thai". Ela é uma força da natureza, um portento de luta contra uma sociedade racista e misógina, silêncio e contenção sempre na expectativa de explosão. E a explosão acontece por várias vezes, com violência física e verbal desalinhada e desconcertante. Ela é o produto de um passado marcado pela tragédia, pelo abuso, mas não se resigna ao papel de vítima. Não existe o cavaleiro virtuoso que salva a donzela. Ela é sangue, fúria e vingança. Ela decide o seu destino. Ela desbrava o seu caminho. E Violetta Schurawlow não gagueja em casa passo sólido da personagem, entregando-se ao papel de forma total e incontida. O filme é o que é graças à sua prestação. A realização "limita-se" a deixá-la explodir ou a observar as suas feições grávidas de raiva. Só por isso mereceu o Mélies D'Argent.

Animals de Greg Zglinski, por seu lado, não funciona. Procura ser uma narrativa surreal e labiríntica de uma relação conjugal em crise, mas acaba por perder-se no enigma que cria (perdoem-me o mau trocadilho). O casal é alemão, ela é escritora, ele cozinheiro. Relações sexuais não existem e ele trai-a repetidamente. Decidem afastar-se para uma casa nas montanhas da Suíça, não só para reavivar o amor e desejo como também para procurar outras abordagens às suas vidas profissionais. A narrativa assume a não-linearidade desde cedo na história mas sempre em detrimento das personalidades, que ficam mal-formadas para além do estereótipo. Se procurava seguir a linha de Lynch, Buñuel, Jodorowsky, falha redondamente.  Era um dos canditados ao Mélies D'Argent.

Faço ainda uma menção ao vencedor da Melhor Curta de Terror Portuguesa/Méliès d’Argent 2017,  Thursday Night de Gonçalo Almeida. Não vi as outras curtas mas esta foi particularmente bem escolhida. Um filme parcimonioso mas sumarento, com fotografia exemplar e capacidade de edição superior. Pouco posso dizer sobre a narrativa, correndo o risco de a estragar. Apenas refiro que é sobre um cão de nome Bimbo e sobre uma visita que recebe no meio da noite com uma mensagem muito importante. Francamente bom!

MOTELx - El Bar e Headshot

O festival MOTELx 2017, a decorrer entre os dias 5 e 10 de Setembro, é um dos momentos cinematográficos mais esperados da rentrée e do Acho que Acho. Vamos lá estar e tentar vos dar uma apreciação dos filmes que teremos a sorte de ver. Passem por aqui todos os dias!


Um dos sentimentos que mais me aflige quando vou ao MOTELx é a quantidade de filmes que poderiam sair em circuito comercial e que muito dificilmente o vão conseguir. Imagino que as grandes cadeias de distribuição não estejam interessadas em divulgar outros que não sejam os das empresas afiliadas e acionistas e, assim, bom cinema fica esquecido. Cinema que poderia ser apreciado pelo mesmo público que vai ver sucessos comerciais como Fast and The Furious, êxitos da DC Comics e da Marvel, e outros. Talvez a recuperação de público nas salas de cinema vista em 2017 veja o regresso destas apostas. 

Duas dessas poderiam ser El Bar de Alex de la Iglésia e Headshot de Timo Tjahjanto e Kimo Stamboef.

O primeiro vem do nosso país vizinho e de um realizador que os apreciadores de Cinema em geral e deste género em particular conhecem bem.  El Bar passa-se dentro do titular espaço, quando um eclético grupo de pessoas vê-se enclausurada no mesmo, já que as ruas à sua frente foram evacuadas e pessoas foram assassinadas à porta. O que se segue é uma sequência de eventos que envolvem os protagonistas, a descoberta do porquê da clausura e a inevitável fuga. Tudo com o humor típico de Iglésia e do seu argumentista de longa data, Jorge Guerricaechevarría. A riqueza do filme desta dupla está nas personagens, na troca de diálogos, na sofisticação das personalidades, que transformam qualquer narrativa em mais que uma experiência de suspense ou horror. Parecemos estar num filme de Tarantino (mas não se esqueçam que Iglésia é anterior a ele), com mais velocidade, mais frenesim, mais iberismo. Esta é umas razões porque não percebo porque os filmes deste senhor não aparecem mais nas salas de cinema em Portugal, já que a sensibilidade e personagens são os mesmos que vemos todos os dias no nosso quotidiano. Sem duvida, um dos grandes filmes que passou no MOTELx deste ano.

Headshot pode ser da Indonésia mas é do tipo que seria apreciado pelos malucos dos filmes de acção violento e frenético (eu sou um deles). Quem se recorda dos brilhantes The Raid I e II de Gareth Evans lembra-se da violência estilizada e extrema, da coreografia de artes marciais do actor Iko Uwais. Este está de volta em Headshot, com mais movimento, mais sangue e muitos mais combates acompanhados de perto por uma câmara que se esforça por estar literalmente colada aos protagonistas. Sentimos cada cambalhota e cada golpe de forma quase simbiótica. O enquadramento treme antes de cada embate, como se percebesse a raiva e força acumulados no soco dos intervenientes.  A história é estruturada como um jogo de computador misturado com filme de vingança e de relação pai/filho/irmãos. O herói tem de passar níveis de combate até chegar ao final onde enfrentará o adversário principal, aquele que lhe diz mais do ponto de vista físico e emocional. Por vezes ridículo mas sempre entretido, seria uma aposta mais difícil do ponto de vista das massas mas, ainda assim, uma a considerar fortemente.

MOTELx - Boys in the Trees e Rift

O festival MOTELx 2017, a decorrer entre os dias 5 e 10 de Setembro, é um dos momentos cinematográficos mais esperados da rentrée e do Acho que Acho. Vamos lá estar e tentar vos dar uma apreciação dos filmes que teremos a sorte de ver. Passem por aqui todos os dias!



Boys in the Trees de Nicolas Verso e Rift de Erlingur Ottar Thoroddsen são dois filmes curiosamente similares em enredo (podem estar descansados que aqui não existirão spoilers). Contudo, no que respeita ao resultado final estão em campos bastante diferentes.

Dos dois, o mais interessante, em execução e forma, é Boys in the Trees, um filme australiano de coming of age com pitada de fantástico. A narrativa centra-se num grupo de jovens suburbanos da década de 90. Com a perspectiva da passagem para a idade adulta, todos se vêem na encruzilhada de um futuro que não será igual ao passado. Uns preferem permanecer como sempre foram, outros sonham com melhores possibilidades em pólos geográfica e mesmo climatologicamente opostos. A premissa parece perfeitamente banal (e é) mas a história está recheada de personalidades cativantes, realização e montagem muito próprias e uma abordagem ao sobrenatural que é sempre bem-vinda - a surreal, indefinida. O argumento consegue sempre, mesmo no último momento, desviar-se do lugar comum e apesar do final ser fácil de descortinar, não só não é um problema como não acontece cedo na narrativa. Um filme delicodoce sobre a passagem à idade adulta, com sacrifícios e finais felizes.

Rift tem vários problemas. Conteúdo esparso, longos silêncios que apenas o sublinham e, acima de tudo, um mistério que de mistério nada tem. O final é demasiadamente óbvio e o realizador faz um trabalho muito fraco para o ocultar. Poderia ter assumido o twist mais cedo ou tentado encontrar formas narrativas mais interessantes para o esconder. Tudo seria, claro, um problema menor se as personagens fossem interessantes e a história cativante. Infelizmente, faz-se usar de lugares comuns e de uma frieza que condiz com a paisagem islandesa (se calhar era essa intenção e tive dificuldade em a atingir). Não nos preocupamos com o destino dos protagonistas, o que acaba por ser um mau serviço a uma história de amor entre dois homens que poderia ser recompensadora mas que é ténue e desinteressante. 

MOTELx - The Limehouse Golem e Kaleidoscope



O festival MOTELx 2017, a decorrer entre os dias 5 e 10 de Setembro, é um dos momentos cinematográficos mais esperados da rentrée e do Acho que Acho. Vamos lá estar e tentar vos dar uma apreciação dos filmes que teremos a sorte de ver. Passem por aqui todos os dias!



As duas propostas do dia de ontem vêem ambas do Reino Unido mas as semelhanças acabam por aí. Em temática, ambiente, narrativa, orçamento e, infelizmente, qualidade, são bastante diferentes. Enquanto The Limehouse Golem de Juan Carlos Medina é um bom filme de entretenimento e uma reflexão feminista passada na Londres Vitoriana, Kaleidoscope de Rupert James é a incursão pela mente destroçada de um homem solitário que acaba por ser demasiado longa e desconexa.

Curioso que as duas propostas têm, como cabeça de capaz, dois actores de topo do circuito inglês, habituados a filmes de alto orçamento e projecção internacional. No caso de The Limehouse Golem é Bill Nighy que fornece a infra-estrutura moral e narrativa do filme, personificando um agente da Scotland Yard encarregue de investigar assassinatos ritualescos na Londres do final século XIX. Se a história se assemelha a um certo estripador, não duvido que as intenções fossem essas, mas este filme é muito mais que apenas um gore-fest de encenação macabra. Acima de tudo, é uma incursão pelo papel das minorias sexuais e, principalmente, de género. Escrito por Jane Goldman, explora o papel discriminatório da mulher na sociedade, usando a nossa percepção para ludibriar não só as personagens como o espectador. Esse truque de espelhos e fumo acaba numa revelação que, ainda que pouco surpreendente, é dita com pormenores que colocam quem vê o filme em cheque e a questionar a sua própria posição em relação a este assunto. Este é um file de considerável orçamento que, contudo, faz bom uso do mesmo e cuja narrativa é robusta, pormenorizada, transportando este mundo de forma vivida para o ecrã, e cheia de conteúdo.

O mesmo não se pode dizer de Kaleidoscope que, mesmo com a ajuda de Toby Jones, que é a força deste filme, cambaleia sob o peso de uma narrativa labiríntica e longa.  Ainda que consideremos a última parte, onde a essência do enredo é revelada, para chegar-mos a esse ponto demorou-se demais e, no que a mim diz respeito, desinteressei-me. Este filme, ainda que de baixo orçamento e narrativa parcimoniosa, teria beneficiado de alguns cortes para aumentar a tensão e clarificar o enredo. A prestação do actor principal salva Kaleidoscope do seu próprio peso, ao conseguir encarnar um homem destruído pelo abuso. 

MOTELx 2017 - Super Dark Times de Kevin Philips

O festival MOTELx 2017, a decorrer entre os dias 5 e 10 de Setembro, é um dos momentos cinematográficos mais esperados da rentrée e do Acho que Acho. Vamos lá estar e tentar vos dar uma apreciação dos filmes que teremos a sorte de ver. Passem por aqui todos os dias!

O filme de abertura do MOLTELx tem uma temática apropriada. Por razões que qualquer sociólogo ou psicólogo poderá elaborar, existe uma faixa do entretenimento dedicada à nostalgia. Filmes, livros, TV, aludem a fases da vida que disseram-nos muito, geralmente a infância e a adolescência. Foi nestas fases que conhecemos amigos para a vida. Foi nesta fase que cultivamos os gostos que nos acompanham. É curioso que o entretenimento que alude a este passado pareça surgir ao mesmo tempo, vindo de diferentes autores e mesmo de diferentes fontes. A série de TV Stranger Things recorda a década de 80, livros de BD, filmes de terror, e alicerça-o na relação de amizade de quatro amigos geek. Uns meses antes apareceu, na editora de BD Image, a obra Paper Girls, também passada na década de 80, desta vez com quatro amigas, e envolvendo monstros, realidades paralelas e viagens no tempo. Ambas são anos 80 vintage. Em ambas os autores recordam-se da sua juventude e fazem-nos ter saudades da nossa.

Super Dark Times de Kevin Philips, filme de estreia do MOTELx, vem da mesma fonte mas com uma perspectiva menos delicodoce. O pano de fundo é o início da década de 90, a relação entre quatro amigos rapazes, a descoberta do amor e um segredo terrível. Enquanto Stranger Things e Paper Girls envereda pelo entretenimento puro e descomprometido, Super Dark Times prefere uma abordagem negra, que não tem nada de fantástico e muito de real. O que começa de forma inocente acaba por enveredar pelo caminho mais maduro, questionando esse tempo nostálgico que recordamos muitas vezes com lentes cor-de-rosa. A realização do estreante Kevin Philips faz viajar para geografias indefinidas, em que a memória é mais um empecilho que uma ajuda. A banda sonora recorda os fantasmagóricos acordes tecnológicos de Carpenter mas sem a aludir especificamente. 

O filme, infelizmente, não funciona na perfeição, por uma mistura de factores. Um argumento que demora a perceber para onde quer ir e personagens que, apesar do esforço dos jovens actores (e são maravilhosos), parecem presas a um mundo de inacção e medo. Este medo e esta inacção poderiam funcionar (como é natural que aconteça em thrillers) mas em Super Dark Times acabam por coxear a narrativa, que arrasta-se sem rumo. Apenas no último terço o filme assume a sua vertente de terror (não vou dizer de que subgénero). Imagino que esse fosse o objectivo do realizador. Aludir a uma adolescência naif, onde o mundo que julgávamos ser de uma forma acaba por ser de outra. Contudo, o que poderia ser uma escolha narrativa interessante, arrasta o filme para a incerteza e mensagens contraditórias. Um começo interessante mas não muito auspicioso para este realizador.

Rapidinhas de Cinema - Wind River e Batman & Harley Quinn



Não. Um filme nada tem a ver com o outro. Um é uma narrativa fria e cruel, um faroeste passado nas montanhas geladas do estado de Wyoming. Outro é um desenho animado descomprometido, leve e humorístico. Um é sobre vidas reais esquecidas pela Lei, outro é sobre vigilantes fantasiosos e uma anti-vilã sociopata (e não psicopata, como é, aliás, bem sublinhado pela personagem no filme). Gostei de ambos.

Wind River é a primeira incursão de Taylor Sheridan na cadeira da realização, escritor dos maravilhosos Sicario e Hell and High Water. Estes dois filmes eram já uma subversão de géneros e uma visão desapaixonada e anti-glamourosa de dois mundos muitas vezes vistos de forma leve pelo Cinema. O primeiro descrevia a luta contra o mundo criminoso do tráfico de droga e o segundo sobre a crise financeira de 2008, as suas consequências e enveredava pelo caminho de um heist movie social. Wind River é um thriller policial a início, uma normal descoberta de "quem-matou?", com a participação da polícia local, do FBI e de um wild-card autóctone que acaba por revelar-se como a peça mais importante da investigação. Claro que, como nos provou nos seus dois filmes anteriores, Sheridan usa o ambiente como forma de comentar uma outra realidade. Neste caso, a do isolacionismo. De um local para onde a Lei não estende o seu braço dito longo. Onde a justiça é feita pela fauna, flora e geografia locais. Existe Lei. Mas não a dos homens. A escolha dos dois actores principais, Jeremy Renner e Elizabeth Olsen, prova que estes dois interpretes são capazes de muito mais do (pouco ou nada) que lhes dão para fazer em filmes de muito orçamento (nos Vingadores são criminosamente subaproveitados). Aqui respiram o ar frio do mundo onde as suas personagens passeiam, cada olhar e gesto um reflexo de uma história maior, de universos que colidem com o drama do enredo. Infelizmente, será daqueles filmes que passarão despercebidos nas salas de cinema, sem o merecer.

Longe, muito longe, da narrativa de Wind River está Batman & Harley Quinn, a ultima incursão da DC Comics pelo seu já duradouro universo de desenhos animados. Desde o início da década de 90 que a editora decidiu tentar novas abordagens, mais adultas, pelo mundo ficcional das suas personagens em formato de desenho animado. Começaram exactamente com o Batman, na lendária série de Bruce Timm e Alan Burnett. Foi nesta que o primeiro e Paul Dini criaram Harley Quinn, a namorada do Joker, o arqui-inimigo do Homem-Morcego. A fama desta personagem expandiu-se nas décadas que se seguiram ao ponto de ser a personagem principal do filme Esquadrão Suicida de 2016, com Margot Robbie no papel da anti-vilã. Com a fama no seu pico, Bruce Timm regressa não só à personagem a quem deu forma mas também ao universo onde a criou. Este filme tem como ambiente a série da década de 90, ainda que se assuma como mais adulta e muito menos apropriada a crianças. Enquanto a Marvel continua a apostar num publico jovem, a DC esforça-se para que as suas personagens e histórias reclamem um público mais adulto (ainda que não necessariamente maduro - e isto não é uma critica). Este Batman & Harley Quinn é uma busca nesse sentido e, no que a mim diz respeito, bem sucedida. Há algum tempo que não me ria tanto - mesmo com piadas um pouco, digamos, adolescentes. Esta Harley é mais arriscada e o Batman mais sisudo (mas com laivos de descontracção, o que atesta bem da latitude da personagem). Nightwing, um dos discipulos do Cavaleiro das Trevas, tem também um papel muito importante e revelador. Um filme bastante divertido para fãs e (acho) não só.