Mostrar mensagens com a etiqueta Cinema 2016. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Cinema 2016. Mostrar todas as mensagens

Neon Demon de Nicolas Winding Refn (O Demónio de Neon)

(em exibição desde 18 de Agosto de 2016)

Qual é a maior crítica que faz-se ao mundo da moda? Que fomenta padrões de beleza uniformes, distorcidos e pouco saudáveis. Que o Belo é apenas o da pele e o das formas. Que é superficial. Nesse aspecto, o novo filme de Nicolas Winding Refn é um sucesso. 

Uma jovem rapariga como tantas outras mas bela como poucas entra no mundo da moda e é adorada pelo seu aspecto, delicioso para os que fotografam e desfilam roupas. Ao mesmo tempo, é invejada por quem não teve a sorte da roleta genética e desejada de forma pouco saudável por predadores sexuais. Desta receita não muito original é cozinhado  um semi-filme de terror, que acaba de forma gore e com laivos de paganismo dignos de Hécate.

Sou um admirador do trabalho de NWR - como gosta agora de ser chamado nos seus filmes. Comecei por Valhalla Rising e continuei por Drive e Only God Forgives. Gostei dos três e o meu favorito é bem capaz de ser o vilificado Only God. Descobri recentemente que o realizador é admirador de alguém que também está entre os autores que mais gosto: Alejandro Jodorowsky, conhecido realizador de cinema (muito) alternativo e, essencialmente, escritor de BD. Vi NWR a falar deste seu ídolo no documentário Jodorowsky's Dune, onde professava que essa obra era um dos maiores filmes nunca feitos (em breve falarei dele). Tendo em consideração os gostos do autor de Neon Demon, percebo parte do meu gosto pelo seu trabalho. A paleta de cores garridas e contrastantes sempre foi um dos elementos mais interessantes da sua filmografia, da qual este último filme e Only God Forgives são bons exemplos. Por outro lado, sou também um admirador do engenheiro do Cinema, Kubrick, que fazia filmes como 2001 e The Shining (os meus dois favoritos) a régua e esquadro. NWR, neste Neon Demon, segue o mesmo tipo de mise en scéne, assumido uma plástica totalmente artificial, estudada e planificada - existe mesmo uma alusão a The Shining num dos diálogos. Não há nada de mau nisso. Muito pelo contrário, no que a mim diz respeito. A mistura da geometria, das cores fortes e da belíssima fotografia são cativantes ao olhar. Cada plano assemelha-se a uma fotografia de Gregory Crewdson ou de Philip DiCrocia, apenas com movimento. Neon Demon, esteticamente, faz-me lembrar de BD. Mas, infelizmente, é só mesmo isso. A história, como referi, é banal e ténue. A metáfora é óbvia, o que por si só não é mau. O pior é o filme não oferecer surpresas ou pontos de vista inovadores.

Os actores são um dos pontos altos de Neon Demon, principalmente a protagonista Elle Fanning, Jena Malone e um seguro Keanu Reeves. Também temos tempo para a actriz-aparecimento-rápido-fetiche de NWR, Christina Hendricks, o que é sempre bom.  Sem duvida, um filme belo, ainda que superficial. Pensando bem, terá sido esse o objectivo?

PS - Não sei porquê mas cheira-me que, com o tempo, vou gostar mais deste filme. A ver vamos.

C'est quoi cette famille?! de Gabriel Julien-Laferrière (Mas Que Família é Esta?!)

O feelgood movie, aquele que nos obrigava a passar tardes de domingo a vê-lo em família e afundados no sofá da sala, esse tipo de filme não tem de ser exclusivamente feito pela magia de Hollywood. Sabem disso, não é? Já aqui o disse em relação a coisas como La Famille Bélier,por exemplo, que os filmes franceses são muito mais próximos de nós, portugueses, do nosso dia-a-dia, da nossa geografia, dos nossos hábitos, que os produzidos nos EUA. Tudo é muito mais familiar. O tipo de ruas. O mesmo ritual comunal de comer, de beber. O mesmo à vontade com que nos relacionamos com os nossos familiares, amigos, conhecidos. Os EUA é os EUA. A Ásia é a Ásia. A Europa, mesmo com os seus múltiplos costumes, é a Europa. E os latinos, esses então são os latinos. Somos nós.

C'est quoi cette famille?! é isso mesmo: um filme bem disposto, despretensioso e cheio de referências e ambientes que nos são familiares. Não esperem dele complexidade cinematográfica. Não esperem a última coca-cola do deserto no que à inovação da 7.ª Arte diz respeito. Esperem apenas passar um bom tempo sentados na sala de cinema. 

A história tem daquelas situações idealizadas típicas de telenovelas ou de sitcoms, tratada com humor francês e com a despreocupação pelo PC típica dos latinos. Existem seis crianças filhas de diferentes combinações de mães e pais, meio-irmãos, semi-irmãs, quartos-irmãos, etc. Fartos de andar a trocar de casa três vezes por semana, de parecerem camelos pelas ruas de Paris, insurgem-se contra os adultos e refugiam-se na casa abandonada de um dos pais. Aí refugiados, obrigam os progenitores a revezarem-se em visitas à casa deles. A situação cómica, típica de tantos outros filmes e não só, arrasta, por si só, os vários personagens para momentos que são, acima de tudo, bem dispostos. Existem dramas, claro, mas apontados para uma resolução aconchegante de happy ending - e é assim que tem de ser. Os actores e o argumento são os heróis do filme. O realizador está lá de forma discreta e nada disruptiva - uns dirão sensaborona ou baunilha. Para mim, foram quase duas horas muito bem passadas. Bem apropriado para o Verão.

The Shallows de Jaume Collet-Serra (Águas Perigosas)

O filme de terror é um dos grande veículos para que um realizador de Cinema possa melhor exercitar os músculos da manipulação. Até monstros como Murnau, Hitchcock, Kubrick e Spielberg o sabiam - e fizeram. Não acreditam? Vejam Nosferatu, Psycho, Birds, The Shining e War of the Worlds. No que a este vosso espectador diz respeito, o filme de terror é uma das grandes experiências que a ida ao cinema lhe pode proporcionar. Mesmo sabendo que entre os meus olhos, o meu coração e a tela nada mais existe que ilusão e fantasia, não consigo deixar de agarrar-me à cadeira, contorcer-me e saltar de susto. O filme de terror é uma das artes maiores, no que a mim respeito. Quando leio ou oiço falar de um que todos dizem ser obrigatório ver, não descanso enquanto não o faço. Este ano houve já o The Witch e (finalmente) o The Conjuring. Ambos certificados com o selo "borra-cueca". 

The Shallows vinha com os alertas todos. Filme de terror surpresa. Minimalista, passa-se numa praia deserta e sem nome onde uma surfista, interpretada por Blake Lively, decide expurgar demónios e apanhar ondas épicas. Aterrorizador, quando um gigantesco tubarão decide persegui-la até a exaustão. Esta fórmula simples é, muitas vezes, forma certa de chegar a um filme de terror eficaz ou mesmo soberbo. The Descent, um dos melhores, pega em quatro mulheres, coloca-as a fazer espeleologia e cruza-as com monstros subterrâneos. The Shallows é ainda mais parcimonioso. E a fórmula resulta mais uma vez. O realizador gere o suspense de forma eficaz, ainda que possa ser acusado de algum academismo, ou seja, não acrescenta nada de novo. Contudo, esse profissionalismo quase matemático na gestão dos diálogos, eventos e terror não descola nunca do essencial, conseguindo prender o espectador. Se há alguma falha que se possa assinalar é, essencialmente, na percepção, a em certo momento do filme, de que não existirá grande surpresa quanto ao seu final. Algo que não estraga a experiência porque o caminho até lá é entusiasmante o suficiente. Por seu lado, Blake Lively está óptima, emprestando todas as emoções necessárias para que vivamos com ela a perseguição encetada pelo predador. Ela não é uma revelação mas consegue aquilo que lhe é pedido. 

Um filme de terror bom sem ser excepcional. Muitas vezes isso é mais que suficiente. E neste caso, é.

Experimenter de Michael Almereyda

Não restam muitas dúvidas que a 2.ª Grande Guerra foi um dos eventos mais importantes do século XX, se não mesmo o mais importante. As suas consequências estenderam-se muito para além das fronteiras do conflito bélico. A personalidade da Humanidade foi posta à prova neste palco que abarcou todo o planeta. Nas décadas que se seguiram, pensadores, cientistas, artistas e o cidadão anónimo pensaram, reflectiram e temeram a imagem retorcida que se reflectia no espelho em frente ao Homem. Um dos maiores temores que se desenharam foi o da extensão e facilidade com que o Mal propagou-se por pessoas que, julgávamos nós, nunca seriam capazes de barbaridades à escala das que ocorreram. Hannah Arendt chamou-lhe a A Banalidade do Mal. George Orwell escreveu 1984 e falou de um Big Brother e de uma sociedade totalitária. O psicólogo social americano Stanley Milgram realizou várias experiências sobre a obediência e a pressão social (peer pressure). O filme Experimenter é sobre estas experiências.

Acompanhamos na narrativa deste filme a vida deste psicólogo desde que iniciou estas experiências nos princípios da década de 60, cujos resultados, quando publicados, foram (e continuam a ser) alvo de controvérsia. Morreu em 1984 (data que, no próprio filme, é assinalada como irónica), mas até hoje, os dados que retirou das suas experiências  continuam a ser debatidos com o fervor de quem não quer acreditar no que é capaz de fazer quando confrontado com uma situação de necessidade de obediência. Não vale a pena adiantar-vos pormenores do estudo levado a cabo por Milgram (era de ascendência judia, já agora). Esse "prazer" deixo a quem se dedique a ver este filme.

Ainda que não seja uma obra-prima cinematográfica, não só a temática é brilhantemente interessante, como o actor Peter Sarsgaard consegue, com voz monocórdica mas, curiosamente, acutilante e cheia de relevância,  agarrar o interesse. Tem também a curiosidade do regresso de Winona Ryder ao grande ecrã, actriz que com este filme e a série de TV Stranger Things parece determinada num poderoso comeback. A realização, por seu lado, tem apontamentos curiosos mas nunca descola vôo, ainda que tente fazê-lo. 

Suicide Squad de David Ayer (Esquadrão Suicida)

Vou começar por fazer importantes confissões. Sou fã de Banda Desenhada desde muito cedo na minha vida (a minha memória diz cinco anos). De tanta e tanta coisa que li, os anos destilaram o meu gosto ao ponto de existirem personagens que moram mais perto do coração que outros. Não quero com isso dizer que não gosto desses ou que considero uns superiores em qualidade. Não tenho amor nenhum por estes conflitos. Mas, nestes dias que correm, adoro o universo de super-heróis da DC Comics, editora dos EUA que tem no seu catálogo os muito conhecidos Super-Homem e Batman e a minha favorita das favoritas, a Mulher-Maravilha. Os que lêem  este Blog sabem o quanto amo e defendo os filmes que inauguraram o universo cinematográfico da DC: os maravilhosos Man of Steel e Batman v Superman. O Esquadrão Suicida, que estreou esta semana, é o terceiro deste mesmo universo. Gostava de poder dizer que tive o mesmo prazer dos dois primeiros. Infelizmente, não é caso. Este Esquadrão não é um filme desastroso - em nada que se aproxime do significado dessa palavra. É um filme com bons momentos, com actores que poderiam ter sido melhor aproveitados mas que, em última instância, são eles que, com as suas interpretações, valem a experiência da ida ao cinema. David Ayers - ou quem quer que tenha sido o último responsável pela edição e história do filme - infelizmente não é um realizador com fogo e inspiração.

O Esquadrão Suicida, na sua iteração actual, foi criado em 1987 pelo escritor de BD John Ostrander. A ideia era simples: o governo, quando confrontado com uma situação que necessitava de mãos especiais, forçava super-vilões seus prisioneiros a cuidarem dessa mesma ameaça. Do lado do governo e a liderar as operações tínhamos Amanda Waller, irascível e cruel, um monumento de personagem capaz de tudo para levar a bom porto a segurança interna. Compondo o dito Esquadrão eram coleccionados um conjunto rotativo de personagens, em que alguns iam sobrevivendo missão após missão e acabando por fazer parte regular da revista homónima. De uma forma ou de outra, o Esquadrão foi aparecendo ao longo deste últimos 30 anos e a DC, numa jogada bem diferente da sua concorrente, a Marvel, decide dar oportunidade cinematográfica aos seus vilões, pelos quais a editora é bastante conhecida - e merecidamente, já que possui alguns dos melhores dos piores. É exactamente pela atractividade dos personagens que aparecem neste filme e pela sua interpretação que o mesmo ganha. 

As mulheres são as estrelas - principalmente quando falamos da Harley Quinn de Margot Robbie (o ponto alto deste Esquadrão Suicida), de Viola Davis como Amanda Waller e de Cara Delavingne como Encantadora (ainda que vários furos abaixo das duas primeiras). É pela força da psicose de todas elas, dos seus diálogos e dos seus actos que o enredo avança e que o interesse pelo filme atinge o cume. No meio das falhas elas brilham. Will Smith, que tenta, com este filme, recuperar uma carreira estagnada, faz de si mesmo com o carisma costumeiro. Não é o ponto alto mas é um valor seguro. Dos restantes personagens, destaca-se ainda uma interessante interpretação de Jay Hernandez como El Diablo. Os restantes pouco ou nada têm a fazer excepto por (e claro que não poderia esquecer-me) Jared Leto e o seu Joker. Este é, ao mesmo tempo, um dos pontos altos e uma falha no filme.  O trabalho de Leto é uma absorvente e maníaca interpretação do Joker, um gangster tatuado, perigoso em cada palavra, louco e atemorizador, como o personagem deve ser. É verdade que o foco era no Esquadrão e na Harley Quinn mas as poucas aparições do maior inimigo do Batman sabem a pouco.  Isso fala muito acerca da qualidade do trabalho de Leto e da força e carisma do personagem. Apenas um apontamento: o Joker, tal como o sempre interpretei, não é tão apaixonado assim pela Harley, sendo mesmo capaz das maiores traições e abusos. Por outro lado, foi pena terem dedicado tão pouco tempo ao nascimento da Harley. A sua origem merecia a duração e o impacto de uma tragédia.

A montagem é, provavelmente, a maior falha do filme. Em muito casos é rápida e frenética. O início, com a apresentação dos muitos personagens, o realizador usa e abusa de banda sonora, como que em compensação do que deveria conseguir apenas com a imagem, diálogos e ambiente. Não existe subtileza, ao ponto da irritação. Felizmente que carrega no travão nos segundo e terceiro actos mas a memória daqueles primeiros minutos ficou sublinhada. Este poderia ser um filme de acção típico do verão que com muita contenção ter-se-ia transformado noutro mais forte mas não menos envolvente. Em termos de argumento, apresenta falhas de ritmo e possui alguns apontamentos de inconsistência.

Um último ponto. A DC Comics tem o mérito de tentar diferentes linguagens e aproximações estilísticas nos filmes do seu universo cinematográfico de super-heróis. Podemos não gostar de algumas (ou nenhuma) delas mas arrisca com prismas diferentes de realizadores diferentes. O Man of Steel e BvS de Zack Snyder em nada se assemelham a este Esquadrão. Não leva pontuação especial mas é, pelo menos, algo a continuar a acompanhar. 

Viajar é o mundo - Love and Friendship e Uma Pastelaria em Tóquio



Viajar pode acontecer dentro da nossa cultura ou pode ser sair. Ficar é bom. Sair é (para mim) melhor.  Sair é fazer com que cada dia pareça maior, mais recheado. A monotonia passa a ser de apenas minutos ou de horas. Se escolhemos percorrer estrada ou ferrovia, se achamos que saltar de local em local é o nosso modo de viajar então é impossível sentir-mo-nos numa rotina. Mesmo que viajemos de forma serena, sem aventuras radicais, o simples acto de abrir os olhos, de provar sabores ou cheirar odores é suficiente para que estejamos mais longe da nossa zona de conforto. O tempo parece correr mais depressa à medida que envelhecemos. Li que isto deve-se ao facto de o nosso cérebro habituar-se à monotonia e distorcer as horas para que pareçam minutos. Nunca tiveram a sensação de que a semana, o mês ou o ano passaram a correr, cada momento igual ao outro? Culpem o casamento da nossa cabeça com o repetitivo dos dias. Viajar é um antídoto.

Quando bate a saudade desta sensação, ver um filme um pouco diferente daqueles a que estamos mais habituados pode ser um equivalente genérico. Estes dois, ambos em exibição, podem ser considerados uma pequena/grande viagem. Love & Friendship remonta ao século dos livros de Jane Austen (adapta um conto pouco conhecido da autora) e às desventuras de uma mulher muito manipuladora interpretada de forma brilhante, sedutora e humorística por Kate Beckinsale. Eu disse manipuladora? Prefiro sobrevivente. Sem recursos financeiros, usa de todas as artimanhas no seu arsenal para conquistar o que espera alcançar. Usa a beleza, sim, mas principalmente uma mente afiada ao gume de uma espada. Os movimentos são certeiros ao ponto de até o acaso funcionar a seu favor. 

Whit Stillman, o realizador, volta a trabalhar com a parelha de Kate e Chloe Sevigny (fizeram dupla na década de 90 em Last Days of Disco) para um filme cheio de carisma e de humor tipicamente britânico. De destacar ainda o trabalho de Tom Bennett e a sua interpretação de um nobre completamente deslocado da realidade, desenhado pelo actor de forma tão satírica que não temos a certeza se ele é mau actor ou apenas brilhante (claro que é a segunda hipótese).

Uma Pastelaria em Tóquio (An, no original) viaja para mais longe. Certo que passa-se nos nossos dias mas desloca-se para o outro lado do mundo, para um país que muito gosto e admiro, o Japão. Um homem é obrigado a cuidar de um negócio de venda de pastéis de feijão doce nos subúrbios de Tóquio.  O negócio não corre bem principalmente porque nenhum amor é-lhe dedicado. Eis que aparece uma senhora idosa, uma soberba cozinheira. Após muita insistência consegue emprego e juntos irão conseguir o inevitável, tornar a pequena pastelaria num sucesso. Este filme está, contudo, muito longe de outros que falam de histórias de sucesso de negócios, de empresas que cresceram para transformarem-se em impérios internacionais. Se é alguma coisa é o oposto disso. Esta é a história (simples) de como abrandar o tempo e querer que nele construamos bases sólidas, conhecimento duradouro. Tudo o que é bom demora. Tudo o que fica dá trabalho. Em todas as artérias deste filme, em todos os poros pelos quais respira há um Japão que (se calhar?) está a desaparecer, o dos rituais, o do tempo, o do apreciar da mudança da estações (o filme passa-se num ano, entre dois florires de cerejeiras). 

É também sobre a passagem de testemunho entre gerações, sobre a importância do conhecimento e do saber. Naomi Kawase, realizadora que inaugurou há 20 anos um movimento do género feminino na cinematografia nipónica (uma sociedade particularmente machista - não, esse aspecto não gosto), faz-me lembrar o trabalho de Jiro Taniguchi, actor de BD que adoro.  Há espaço para os idosos e para apreciar a mudança de folhas numa cerejeira. Há espaço para cheirar os odores da Primavera enquanto transformam-se em de Verão e depois de Outono e novamente nos de Primavera. Há tempo para construir lentamente.

Dois filmes-viagem soberbos.

Victoria de Sebastian Schipper

(E está completa. Todos os filmes que eu gostaria de ver nas salas de Cinema de Portugal estrearam. Este foi o primeiro da rubrica Quando Estreia? e é o último a sair comercialmente. E que filme: mais de duas horas de um único take ininterrupto. Virtuoso, sim, mas também um excelente filme. Não o percam!)

Vou fazer uma confissão: adoro um bom malabarismo técnico. Quando leio que um filme tem o maior take contínuo da História do Cinema e que, ainda por cima, essas duas horas e um quarto são filmadas em tempo real, o meu lado geek da 7.ª Arte fica muito, muito entusiasmado. Foi desta forma que foi-me apresentado Victoria do alemão Sebastian Schipper. Um impressionante esforço em filmar, num plano contínuo, duas horas e um quarto de uma jovem espanhola na noite Berlinense. Numa discoteca, Victoria conhece um quarteto de residentes. Estes acabarão por transformar a noite da madrilena na mais incomum da sua vida. 

É improvável não ficar impressionado pela força da técnica empregue. Claro que não é algo novo no Cinema. Muitos são os realizadores que já o fizeram e com resultados (acredito) mais impressionantes - ainda estou por ver A Arca Russa de Aleksandr Sokurov e não me esqueço de Antes do Anoitecer de Richard Linklater, outro realizador que adora malabarismos técnico-narrativos. Mas este, perdoem-me o entusiasmo infantil, é o maior take contínuo da História do Cinema. A curiosidade foi grande demais para não deixar-me levar por ela. 

Há algo que o realizador consegue: o take acontece sem esforço, ou seja, o espectador não se sente assoberbado pela técnica. Ela é empregue de forma "leve". A câmara acompanha os actores sem parecer estar a filmar um único take.  Os actores (que recorreram muito a improvisação) conseguem, de forma natural, contar as emoções e o enredo. Todos estão excelentes na entrega ao filme, especialmente a espanhola Laia Costa, que carrega quase todo a história de forma decidida. 

Contudo, nem tudo são maravilhas. Em alguns momentos do filme nota-se o arrastar da acção, quase como devessem ter cortado alguns minutos. Mas não é algo que choque ou enfade. Ainda assim, a meu ver, a maior falha acontece também numa das suas maiores forças: a protagonista, Victoria. As motivações da personagem parecem demasiadamente vagas, poucos sólidas, insuficientes para justificar algumas das acções extremas que decide fazer nas apenas duas horas em que conhece os quatro berlinenses com que se envolve. Ou então sou eu que tive um vida bem enfadonha e sem graça. 

Será que vai estrear em Portugal? Tanto quanto é do meu conhecimento não está prevista a estreia em salas comerciais e, até agora, nenhum festival também o anunciou. O que, claro, é ainda muito cedo. Talvez o possamos ainda ver num Indie ou MotelX. É só uma questão de ter esperança porque nem que seja porque é "o maior take da História do Cinema" (sim, é a terceira vez que o digo, eu sei), só por isso já valerá a pena. 

Rapidinhas de Cinema - El Club de Pablo Larraín e Les Anarchistes de Elie Wajeman




El Club de Pablo Larraín é o tipo de filme que não recomendo a quem queira sair bem disposto do cinema. É também por isso que é um filme muito bom. Uma história que, por si, não promete facilidades: uma vivenda perdida na costa chilena alberga padres (e não só) que cometeram actos criminosos, dentre os quais o pior é a pedofilia. Vivem neste degredo acompanhados de uma freira e, um dia, recebem um novo hóspede, um outro padre nas mesmas condições. Os eventos despoletados por esta visita irão colocar em questão a falsa paz daquela casa e a própria natureza da expiação a que estão sujeitos. 

Logo desde o primeiro momento o filme marca a sua assinatura. Aqui as palavras não serão medidas ou contadas com parcimónia.  Os actos destes padres não serão mitigados pelo eufemismo, antes serão cruamente expostos quer pelas vozes dos abusados quer dos abusadores eles mesmos. Enquanto o filme Spotlight tratava deste hediondo tema pelo lado da luta jornalística na descoberta e trazida à justiça dos culpados, O Clube prefere ir directo à fonte e transformar a história naquilo que ela deve ser: desagradável e acusatória. 

A realização é feita a matizes de negro e de desolação, a da costa de areia preta, a da aldeia abandonada pela civilização, um perfeito cenário de afastamento destes homens piores.  A única redenção será aquela que eles e a Igreja podem dar. Ela chega mas de forma matizada, cinzenta, como a moralidade de todos os que estão envoltos neste crimes maiores. Um filme grande mas não aconselhável a todos.

Les Anarchistes de Elie Wajeman vinha com duas grandes atrações para mim: Adèle Exarchoupoulos e Tahar Rahim, dois actores franceses que protagonizaram dois filmes maiores, La Vie D'Adèle e Un Prophéte.  A jovem actriz é, para mim, particularmente especial, porque o filme que a tornou conhecida é um dos melhores que já tive o prazer de ver na minha vida, uma pérola que não me canso de elogiar. Acredito na presença de ecrã de Adèle, porque existe uma força inextinguível e inigualável. É por isso que foi com muita pena que vi este filme menor, um esforço de realização e de história perdido, sem rumo e sem objectivo. Não se percebe se trata-se um filme sobre o movimento Anarquista do final do século XIX em Paris ou de uma história de amor. Poderia ser ambos mas acaba por não ser nada. Os actores acabam por ser, de facto, pela força e talento, o único elogio que pode tecer-se acerca d'Os Anarquistas. De resto, é uma oportunidade perdida.

(PS - é o terceiro filme com Adèle que vejo em que a actriz, de uma forma ou de outra, faz ou tem o sonho de ser professora primária. Que se passa aqui?)

Tangerine de Sean Baker

(novamente a rubrica Quando estreia?, sem mérito nenhum e muita sorte, consegue prever um filme que iria estrear. Esta semana temos esta experiência filmada em iPhone chamada Tangerine. Segue o que se escreveu num post anterior)

Tangerine de Sean Baker vem com várias recomendações.  Fez parte de várias listas dos melhores filmes de 2015. Fez furor no Festival de Sundance nos EUA. Foi integralmente filmado com um iPhone. A curiosidade era mais que justificada.

O enredo passa-se num dia da cidade de Los Angeles onde acompanhamos duas amigas enquanto uma delas tenta encontrar o seu namorado/chulo que, alegadamente, a terá traído com outra das suas prostitutas. Apesar do móbil da acção ser a jovem traída, ambas são protagonistas num drama que, ainda que ocorra num universo hermético, possui uma universalidade que o exporta para o círculo do relacionável.

As duas protagonistas, Kitana Kiki Rodriguez e Mya Taylor, são dois furacões em movimento pela labiríntica e ensolarada Los Angeles, uma cidade ela própria longe das referências europeias de urbe. Oferecem um desempenho cativante que nos obriga a estar constantemente a prestar atenção ao ritmo acelerado do seu discurso regional e cheio de colorido. São ao mesmo tempo sofredoras e lutadoras sem medo, procurando sublinhar-se como pessoas. Não há quartel na sua luta, o que se espelha no tom das suas vozes, na ferocidade do seu andar e na velocidade que partem na afirmação dos seus desejos. Não há espaço para duvidas. Ou, pelo menos, assim o parece porque, na realidade, há e muitas. 

A realização de Sean Baker é de tal forma energética e estudada que nos faz esquecer o facto de ser integralmente filmada em iPhone 5S. A montagem é rápida, emprestando a velocidade das protagonistas ao passo do enredo.  Muito à semelhança de Victoria de Sebastian Schipper, o elemento técnico  vai muito para além da curiosidade e assume-se como elemento da narrativa, de forma plena e descomprometida.  Abre espaço para esperança da democratização do Cinema, algo que Martin Scorcese abordou numa conhecida carta endereçada à sua filha. Mas como também ele diz, não basta a facilidade com que podemos fazer filmes hoje em dia. Para ser Cinema é preciso mais que isso, uma magia que junta enredo, técnica e talento. E isso este Tangerine tem de sobra. 

L'Avenir de Mia Hansen-Løve ( O Que está por Vir)

(vi-o no Indie 2016 e perguntei quando estreava comercialmente. Eis que aparece hoje nas salas de Cinema um dos filmes de que mais gostei neste ano de 2016 - superado apenas pelo meu amor ao Batman v Superman. Se ligam alguma coisa aos meus conselhos não percam a oportunidade de o ver. Absurdo de bom!)

Uma das características que distingue os realizadores que os intelectuais chamam de "auteurs" (porquê é que adoram palavras francesas?) é a repetição de um "tema" em todos os seus filmes. Pode ser um tique, uma estética e pode ser (e aí eles deliram) uma preocupação - chamemos-lhe assim. Se é desta maneira, à partida (porque nestas coisas nunca podemos ter a certeza), Mia Hansen-Løve será uma das escolhidas para esta exclusiva categoria. Vi três dos seus filmes, L'Amour de JeunesseEden e agora L'Avenir, e todos, de formas diferentes, abordam os mesmos temas: o passar do tempo da Mulher ou do Homem; a maturidade ou falta dela, consequência desta passagem. Eu, por mim, adoro os filmes dela e este último não foi excepção - não sei o que isto diz de mim se vocês levarem muito a sério o que escrevi no início deste parágrafo.

No post anterior sobre o Indie escrevi que seria pena alguns dos filmes não estrearem comercialmente e não forem vistos por mais pessoas. Este é um dos melhores casos - e tenho a certeza que vai sair, já que todos os filmes de Mia Hansen-Løve apareceram nas salas de cinema fora de festivais. A realizadora, como já disse, volta a pegar em temas que a preocupam mas, desta vez, a partir de olhos diferentes, os maduros de Isabelle Huppert. Nos anteriores L'Amour de Jeunesse e Eden a autora escolhia a perspectiva de dois adolescentes, uma rapariga e um rapaz, respectivamente, e não se ficava apenas por uma vivência idílica deste tempo maravilhoso na nossa vida. Ela buscava, no passar do tempo, no esticar para lá do happy ending, documentar de forma poética mas afastada o que acontece para lá do formato cor-de-rosa de um amor vertiginoso de juventude e de uma experiência profissional de algo que adoramos fazer. Notava-se, na escolha narrativa e na escolha como realizadora, uma busca pela maturidade, do que significa na realidade. Com L'Avenir, Mia Hansen-Løve escolhe fazer o mesmo mas através de uma mulher muitos anos mais velha, casada, com filhos da idade dos protagonistas dos outros dois filmes. Esta é uma mulher a quem a vida parece correr bem até determinado momento. Até às várias viragens que lhe aparecem no caminho, mudanças inevitáveis que acabam por revolucionar um futuro que parecia certo. A realizadora coloca-se no lugar da protagonista mas também no do jovem em quem Huppert, professora de filosofia no liceu, deposita as expectativas de poder vir a ser a pessoa que ela gostava de ter sido. Mesmo em detrimento dos seus filhos e marido, cuja vida e opiniões são tão diferentes daquelas que defende e postula. No fundo, estamos a ver a mesma pessoa em três tempos diferentes: uma já como adulta (Huppert); outra como jovem idealista (o adolescente, aluno, que ela protege); a terceira, de quem não falei ainda, a da mãe de Huppert, uma ex-modelo de catálogo, que transforma a terceira idade num calvário para ela e para a filha.

Este filme é uma evolução brilhante do tal "tema" que parece existir em todos os filmes de Hansen-Løve. Um reflexão adulta e cuidada do que significa o passar do tempo, do facto de, mesmo na nossa vida, sermos apenas um dos actores. É, sem duvida, para mim, um dos melhores filmes do ano. 

Kiki, el Amor se Hace de Paco León (Desejos, o Amor faz-se)

O sexo é um tema difícil de abordar. Nós, latinos e mais especificamente ibéricos, lidamos com ele de uma forma que é muito nossa. Aparentemente descontraída, com corpos meio vestidos por causa do calor, mas na realidade contraída, com o negro viúvo do inverno. É uma dicotomia que arrasta homens e mulheres para o labirinto. Uns saem dele, outros - esticando a metáfora para o lado do óbvio - perdem-se nele. Não sei se os espanhóis serão diferentes de nós, portugueses, mas este filme de Paco Léon pode ser uma pista. 

A premissa é aparentemente banal. Casais de várias idades enfrentam diferentes problemas de cariz sexual. Ao longo de quase duas horas irão encontrar variadas formas para lidar com essas insuficiências mas de maneira humorística, descontraída e colorida, como imagino (perdoem-me a generalização) que são os espanhóis. Um tema tão tabu dá azo a que tenhamos de tratá-lo, muitas vezes, com luvas de pelica. Nada poderia ser mais longe da forma como o realizador aproxima-se dele, escolhendo a desfaçatez, o sorriso, o ridículo, agarrando o público pelo humor e acorrentando-o pela proximidade.  

Este filme (como também senti com o Volver de Almodóvar) poderia ser nosso se tentássemos escrever algo assim: imaginativo; divertido sem cair no brejeiro - a eterna bipolaridade da cinematografia portuguesa, sendo que do outro lado está a pesada seriedade intelectual. Não há aqui realização intrometida - excepto por uma deliciosa sequência inicial. Paco Léon afasta-se e deixa que as palavras e os actores (todos deliciosos) respirem e envolvam-se de corpo e (mais) corpo nas personalidades e eventos, que são variados, quase inverosímeis, e extremamente divertidos. 

Este é um filme assumidamente para adultos, adultos já com largos anos de vida, com casamentos falhados, outros por começar, com filhos criados e outros por criar. Não existem problemas fáceis e lineares porque a vida é complicada e muito pouco fofa. As soluções românticas não são aquelas que os filmes românticos repetidamente vendem. Nem sempre passam pelo banal, quer falemos de um casal hetero, quer homossexual. O amor e o sexo assumem neste delicioso filme a sua pluralidade, a sua liberdade de opções. Nada poderia ser mais actual, tendo em consideração a tragédia que ocorreu recentemente nos EUA. Obrigatório ver sem preconceitos e com a cabeça adulta cheia da experiência desarrumada da vida.  

Love de Gaspar Noé

(a rubrica Quando Estreia? deste blog soma o primeiro filme que acabou mesmo por estrear. É este Love de Gaspar Noé, que já tinha sido exibido no Indie 2016 e que agora aparece comercialmente. Segue o texto escrito na altura)  

Nas discussões descontraídas sobre Cinema Americano vs Cinema Francês aparecem sempre duas diferenças entre um e outro. O primeiro tem armas, tiros e acção desenfreada. No segundo aparecem sempre pessoas nuas e sexo, muito sexo. Para a nossa realidade europeia, onde a posse de arma não está consagrada em nenhuma Constituição e onde não é permitido, em nenhuma circunstância, andar na rua com uma (sim, Texas, estou a falar de ti), não nos parece natural o abraço que os EUA fazem a esta realidade, digamos, bélica. Para nós (principalmente para os franceses), o sexo é mais facilmente aceite. Existe, obviamente, o pudor, a religião, que andam de mão em mão, mas não deixa de ser o mais natural dos actos, perdoem-me o lugar comum.

Gaspar Noé nunca foi um realizador fácil, com todo o peso que esta afirmação pode ter. Irréversible e Into the Void são obras no mínimo estranhas (e que adoro). Love já andava nas bocas e mexericos do mundo desde que foi anunciado como sendo "verdadeiramente pornográfico". Estreou em Cannes com algum alarido mas não me parece ter suscitado reações particularmente entusiasmantes. Ora, ser ou não pornografia é, de facto, algo importante para a maior parte das discussões sobre este filme mas, sinceramente, não me parece que deva ser o único ponto de conversa.

A primeira cena e o primeiro plano não deixam margem para dúvidas quanto à forma como Noé trata o sexo neste filme. Acontece às claras a partilha de intimidade entre o casal. Todas as pistas essenciais para perceber as cenas de sexo estão no título do filme.  Esta é um história de amor onde entramos no quotidiano mais pessoal da vida de um casal. Mas, mais que isso, Noé tenta transmitir para o ecrã a verdadeira intensidade de um amor pleno e profundo. Nem sempre o consegue, recorrendo, em mais episódios que um, a alguma repetição e (para muito imagino) alguma banalidade e gratuidade. Que fiquem já avisados que existe sexo explicito mas não da forma como em, por exemplo, Os Idiotas de Trier ou 9 Songs de Michael Winterbottom. 

A história é relativamente simples. Rapaz e rapariga apaixonam-se. Ele faz algo do qual se vai arrepender. Os sentimentos são explorados pela câmara de Noé, que entra de forma despudorada nas palavras, beijos e cama dos protagonistas. Um filme poderoso, difícil e, sem duvida, que não é para todos os gostos. 

Era para ter estreado em Portugal no passado dia 11 de Fevereiro mas, por razões que desconheço, não foi (estreia hoje e ainda bem). Serão as óbvias? Duvido, mas espero que alguém se arrependa e o lance mesmo que em sessões mais nocturnas  - não que já não tivessem estreado filmes bem mais "arrojados" do que este e ninguém gritou que iríamos parar ao inferno. Se estivéssemos no Texas se calhar a reacção era outra.

Une nouvelle amie de François Ozon (Uma Nova Amiga)

O trailer, se mal usado, é  uma faca de dois gumes. Queremos publicitar e entusiasmar o suficiente os potenciais espectadores mas podemos correr o risco de revelar o enredo em demasia, ao ponto de roubar toda a surpresa de um argumento que vive para isso. Apesar de eu amar o Batman v Superman tenho a certeza que um dos últimos trailers revelou mais do que deveria.  Ora, quando vi, pela primeira vez, o deste novo filme do francês François Ozon fiquei com a mesma sensação. Apesar de ter ficado interessado também achei que revelavam pontos importantes (diga-se, óbvios) da história. Nada mais longe da verdade. O trailer reorganiza de forma inteligente a cronologia do filme ao ponto de sermos completamente enganados em relação ao mesmo. 

O que parece uma deambulação desnecessária acerca de uma acessório publicitário do filme asseguro-vos que não é. Este é um filme de enganos, de vidas não vividas, de verdades que os próprios protagonistas (consciente e inconscientemente) escondem. É também e acima de tudo (para mim) uma história de amor, de como ele derruba fronteiras de toda a espécie até valer apenas por ele mesmo. Sem preconceitos e axiomáticas noções de certo e errado. Quem escolhemos amar é algo que (em última análise) escapa a qualquer imposição, porque se o amor é animal (e ainda achamos que é) ele acontece de forma quase inusitada, incontrolável. 

François Ozon continua, de forma segura e até um pouco pop, a ser um dos mais interessantes cineastas francófonos, e este novo filme perdura um momento particularmente feliz do autor, depois de Jeune & Jolie e de Dans La Maison. A sua realização parece querer inspirar-se, de forma quase tangencial, no trabalho do mestre Hitchcock pela mistura interessante de thriller e drama pessoal. Um filme a ver.

Dheepan de Jacques Audiard

Os personagens de Jacques Audiard são marcados por eventos difíceis, catastróficos mesmo. A mulher que perde as pernas, um rapaz colocado numa prisão. Contudo, não deixam de ser mundanos, nunca revelações divinas (ou serão?). Neste seu novo filme (depois de Ferrugem e Osso)  o evento catastrófico é o drama dos refugiados, emigrantes de um país devassado pela guerra, neste caso o Sri Lanka. É a história de uma família falsa que cria-se na areia e sangue do conflito e decide recomeçar em França. É a história de um homem, Dheepan, que tenta esquecer o passado violento do seu país e conviver com outro tipo de violência, esta mais urbana e, a seu ver, inofensiva, a dos subúrbios franceses.

A verdadeira história começa num momento curioso. Estamos habituados aos homens que, nos restaurantes, tentam vender-nos bugigangas a um euro. Esse momento é filmado por Audiard mas na perspectiva do vendedor que é obrigado a fugir quando sente a aproximação da polícia. A câmara não fica com os frequentadores do restaurante e antes acompanha os pobres homens para as suas camaratas, onde vivem amontoados com tantas outras famílias de emigrantes. Farto, Dheepan tenta uma nova vida como porteiro de um complexo de habitações sociais francesas. Junta a sua falsa esposa e a sua falsa filha e tenta construir dignidade, mesmo que rodeado pela violência de gangues ligadas ao tráfico de drogas. 

Este novo de Audiard tenta ser vários filmes ao mesmo tempo e é por isso que não tem o alcance e o porte dos seus outros como O Profeta e o já referido Ferrugem e Osso. Começa por ser uma espécie de documentário, evolui para drama, romance, para crítica à segurança social francesa (contrapondo-a mesmo em relação à inglesa) e chega a entrar no thriller de acção. Esse desequilíbrio de estilos acaba por transformar o produto final em algo pouco seguro da sua identidade. Os actores estão maravilhosos, o argumento é interessante, mas o realizador optou por soluções narrativas que, a meu ver, são tantas que acabam por decidir-se a ser nenhuma. Não é de todo um filme desagradável mas está a anos-luz dos seus anteriores, principalmente do meu favorito, O Profeta

Quando estreia? The Lobster de Yorgos Lanthimos


Eu sei que estreia comercialmente na próxima Quinta-Feira e que já andou pelos ecrãs do Indie Lisboa deste ano. Mas a revista Sight & Sound, a minha bíblia da 7.ª Arte, há já algum tempo que falava que se desunhava de Yorgos Lanthimos, o realizador, e fiquei curioso. Vi este e Kynodontas. Ficou claro na minha cabeça, depois de ver estes dois exemplos, que o Lanthimos tem um gostinho pelas metáforas e pelas alegorias, fortes e claras (se é que é possível uma metáfora ou uma alegoria serem claras). Qualquer um dos filmes explora um mundo normal mergulhado no absurdo e no surreal. Este Lobster é especialmente delicioso e (para mim) o melhor dos dois. Com certeza que o facto de estar a abarrotar de estrelas internacionais (Colin Farrel, Rachel Weiz, Léa Seydoux) contribui para o atractivo do filme, que o superior orçamento dá espaço de manobra para a imaginação do realizador grego, mas a história é, a meu ver, superior e um misto de entretenimento e intelectual que estou cada vez a gostar mais à medida que os anos acumulam-se.

Num futuro (?), numa terra (?), todos os seres humanos têm de estar casados. Caso separem-se ou o cônjuge morra são internados num hotel/hospital/hospício onde poderão conhecer outros desgraçados solteiros. Terão de escolher um dentre eles num número pré-determinado de dias, caso contrário serão transformados num animal à sua escolha (o protagonista escolhe uma Lagosta, daí o título). Para aumentar o número de dias da "procura" envolvem-se numa espécie de jogo de Paintball onde, por cada solteiro caçado, ganham mais um dia. A história não acaba aqui (nem de longe nem de perto) mas se não ficaram agarrados por esta deliciosa surrealidade então não sei o que mais posso fazer por vocês.

A inverosimilhança do mundo e da situação passa completamente "ao lado", porque os actores e realizador conseguem envolver-nos numa situação que, no fundo dos fundos, não parece assim tão estranha e alienígena. A ditadura do mundo dos casados é-nos familiar, a caça por mais dias não é absurdamente estranha. Não. Tudo parece assustadoramente real. E aí reside a magia e o terror deste mundo. Parece que O Processo de Kafka e o Anjo Exterminador de Buñuel fizeram sexo nos penhascos da costa chuvosa da Escócia. E dele nasceu este Lagosta, um filme cativante e repugnante em iguais medidas. Cativante no mau sentido e repugnante no bom, se é que faço entender-me.   

Quando estreia? e O meu Indie 2016! - L'Avenir de Mia Hansen-Løve

Uma das características que distingue os realizadores que os intelectuais chamam de "auteurs" (porquê é que adoram palavras francesas?) é a repetição de um "tema" em todos os seus filmes. Pode ser um tique, uma estética e pode ser (e aí eles deliram) uma preocupação - chamemos-lhe assim. Se é desta maneira, à partida (porque nestas coisas nunca podemos ter a certeza), Mia Hansen-Løve será uma das escolhidas para esta exclusiva categoria. Vi três dos seus filmes, L'Amour de Jeunesse, Eden e agora L'Avenir, e todos, de formas diferentes, abordam os mesmos temas: o passar do tempo da Mulher ou do Homem; a maturidade ou falta dela, consequência desta passagem. Eu, por mim, adoro os filmes dela e este último não foi excepção - não sei o que isto diz de mim se vocês levarem muito a sério o que escrevi no início deste parágrafo.

No post anterior sobre o Indie escrevi que seria pena alguns dos filmes não estrearem comercialmente e não forem vistos por mais pessoas. Este é um dos melhores casos - e tenho a certeza que vai sair, já que todos os filmes de Mia Hansen-Løve apareceram nas salas de cinema fora de festivais. A realizadora, como já disse, volta a pegar em temas que a preocupam mas, desta vez, a partir de olhos diferentes, os maduros de Isabelle Huppert. Nos anteriores L'Amour de Jeunesse e Eden a autora escolhia a perspectiva de dois adolescentes, uma rapariga e um rapaz, respectivamente, e não se ficava apenas por uma vivência idílica deste tempo maravilhoso na nossa vida. Ela buscava, no passar do tempo, no esticar para lá do happy ending, documentar de forma poética mas afastada o que acontece para lá do formato cor-de-rosa de um amor vertiginoso de juventude e de uma experiência profissional de algo que adoramos fazer. Notava-se, na escolha narrativa e na escolha como realizadora, uma busca pela maturidade, do que significa na realidade. Com L'Avenir, Mia Hansen-Løve escolhe fazer o mesmo mas através de uma mulher muitos anos mais velha, casada, com filhos da idade dos protagonistas dos outros dois filmes. Esta é uma mulher a quem a vida parece correr bem até determinado momento. Até às várias viragens que lhe aparecem no caminho, mudanças inevitáveis que acabam por revolucionar um futuro que parecia certo. A realizadora coloca-se no lugar da protagonista mas também no do jovem em quem Huppert, professora de filosofia no liceu, deposita as expectativas de poder vir a ser a pessoa que ela gostava de ter sido. Mesmo em detrimento dos seus filhos e marido, cuja vida e opiniões são tão diferentes daquelas que defende e postula. No fundo, estamos a ver a mesma pessoa em três tempos diferentes: uma já como adulta (Huppert); outra como jovem idealista (o adolescente, aluno, que ela protege); a terceira, de quem não falei ainda, a da mãe de Huppert, uma ex-modelo de catálogo, que transforma a terceira idade num calvário para ela e para a filha.

Este filme é uma evolução brilhante do tal "tema" que parece existir em todos os filmes de Hansen-Løve. Um reflexão adulta e cuidada do que significa o passar do tempo, do facto de, mesmo na nossa vida, sermos apenas um dos actores. É, sem duvida, para mim, um dos melhores filmes do ano. 

Captain America: Civil War dos Irmãos Russo (Capitão América: Guerra Civil)

(sem spoilers)


A pessoa que foi ver comigo este novo filme da mega-saga do universo cinematográfico da Marvel disse-me algo que (confesso, com vergonha) não me ocorreu depois de ter saído da sala: o confronto entre os heróis é consequência da mesma razão que a do filme Batman V Superman (ou vice-versa). Quer um, quer outro pergunta-se do papel da violência dos super-heróis na vida dos habitantes da Terra, das consequências materiais e emocionais daqueles que partilham com eles estes mundos ficcionais. Obviamente, optam por caminhos bem diferentes na análise da reacção dos heróis, mas estas "coincidências" não deixam de ser curiosas. Parece que as mitologias e histórias de super-heróis chegaram a um tal ponto de reconhecimento mainstream que podem ser meta-textuais sem que ninguém sinta-se ostracizado - ou isso ou não sabem ser originais.

Mas vamos ao que interessa. Valeu a pena? Sim, valeu e muito. No que a mim diz respeito, este é um filme de puro e delicioso entretenimento, cheio de acção, drama super-heróistico, humor ao estilo Marvel, etc. Foi também lugar da introdução de dois novos personagens neste universo cinematográfico, o Pantera Negra e o muito aguardado Homem-Aranha, que acabam também por ser duas das maiores vitórias do filme, pelo casting perfeito, pelos diálogos, pela acção. Como fã da Marvel e de Banda Desenhada, dificilmente encontrei algo com que ficar insatisfeito. Apenas tenho dois reparos a fazer: um deles não é tanto um reparo mas uma advertência e outro, sim, assumo-o como uma leve crítica. Primeiro, este filme é capaz de ser um pouco excessivo para com os que não estão familiarizados com o universo de super-heróis da Marvel - e falo dos que não lêem BD. Segundo, a realização: o lado autoral do Cinema, a assinatura de realizador, é completamente inexistente, aliás como para todos os da chancela da Disney/Marvel. As produtoras não querem mexer numa fórmula que tem dado tantos e tão agradáveis resultados financeiros. Mas depois de ver cada filme Disney/Marvel fica a sensação de ter visto o mesmo desde 2007, o ano do primeiro Homem de Ferro, isto apesar dos diferentes realizadores. A cor é a mesma, a iluminação é a mesma, os enquadramentos (se calhar) são sempre os mesmos. Contudo, e sublinho, nada disso retira prazer às duas horas e meia. Puro entretenimento.

A adaptação do material original é uma das grandes forças dos filmes da Disney/Marvel. Existe e continua a existir um equilíbrio saudável entre respeito e sentido prático no que à 7.ª Arte diz respeito. O Capitão América continua a ser um personagem por quem nutro um carinho especial (muito mais do que pelo Homem de Ferro), pelo seu inabalável sentido democrático e de liberdade. Mas, neste filme, há algo que salta ainda mais à vista: a teimosia da ideologia e a lealdade para com os amigos. Estas características são, aliás, o grande motor da narrativa, não só pelos inimigos que cria como também pelas alianças que forja. Para mim, é sempre delicioso ver um personagem tão resolutamente bondoso neste mundo cheio de cinismo e hipocrisia (deve ser também por isso que gosto tanto do Homem-Aranha, do Super-Homem e da Mulher-Maravilha). Se existe algo com o qual me identifico é esta - o que os cínicos chamariam - naiveté , mas que prefiro descrever como optimismo e crença na bondade (sem perder de vista onde escondem-se as sombras do mundo). Precisamos de pessoas assim no mundo real. 

Resumindo, um belíssimo filme de entretenimento à boa maneira da fórmula Disney/Marvel. Quem gosta, continua a gostar. Eu adorei.

O meu Indie 2016! - The Witch e Boi Néon



Ir a um festival como o Indie é ficar com pena. Pena em como muitos dos filmes que temos a sorte de ver não poderão ser apreciados por mais espectadores. Porque não terão estreia comercial e, mesmo que a tenham, hoje em dia é impossível ver tudo o que aparece nas salas de cinema, por melhores que sejam as recomendações dos amigos. É o caso destes dois que tive a sorte de ver: The Witch: A New England Folktale de Robert Eggers e Boi Néon de Gabriel Mascaro.

Tinha ouvido falar de The Witch: A New England Folktale. Tratava-se de um filme de terror que, segundo as criticas e reportagens, não deixava ninguém indiferente, tal a experiência emocional e sensorial que oferecia. Para quem não sabe, sou completamente viciado em filmes de terror. O meu festival de cinema favorito em Lisboa é o maravilhoso MOTELx. Procurar reproduzir sensações como as que tive quando vi The Descent ou It Follows, apenas para falar de recentes, é uma busca constante. Quando soube da estreia deste no Indie, corri a comprar bilhete. 

Este é um filme de terror, sim, mas também de época. Passado na Nova Inglaterra de 1630, com uma piosa família de colonos ingleses nas terras ainda relativamente virgens do futuro EUA. A grande força deste filme, como em muitos dos bons de terror, reside na sensação de medo e na exiguidade de explicações. A omnipotente floresta é desenhada como uma barreira insondável do desconhecido e do primordial, ao mesmo tempo que guarda outros terrores, em partes iguais mundanos e demoníacos. A devota família é, membro a membro, "comida" pela escuridão. Contudo, nunca nos são dados a conhecer os detalhes do que se passa.  Todos os espaços ocultos do mistério terão de ser preenchidos pelo espírito inquiridor de cada um de nós. Não é um filme que tenha me entusiasmado da mesma forma que os dois que referi acima, mas tenho a impressão que, com o tempo e uma nova ida ao cinema, isso pode modificar-se.

Boi Néon é outro bicho. Filme recomendado por mais do que um site e jornal como sendo um dos grandes momentos do Indie. Novamente, a curiosidade era muita. A sensação de poder ver algo verdadeiramente novo é imprescindível no que a mim diz respeito. O título era maravilhoso tal como o enredo: um homem vagueia pela pobreza do nordeste brasileiro, acompanhando uma trupe que leva bois de rodeo em rodeo. Ao mesmo tempo que cuida dos animais e do espectáculo, procura na poeira e na lama forma de concretizar o seu sonho: ser estilista. A metáfora é óbvia: o belo encontra-se em todo o lado, não tem apenas roupagens engomadas e paisagens minimalistas.  Ele insiste em aparecer sempre e por todo o lado. Mas existe também algo mais do que apenas isso. Este é um filme brasileiro e não quer esconder isso. Um filme que se passa no nordeste brasileiro e não quer esconder disso. Assume-o nos corpos nus, quer pelas roupas rasgadas do uso, quer no sexo que, desprendidamete, acontece em cada canto, sem cama, quarto ou privacidade. Assume-o nas paisagens de poeira e nos anúncios desenhados nas rochas. Assume-o nas palavras dos protagonistas e nos actos desprendidos.  Assume-o na esperança. Este é um filme único e com uma assinatura bem desenhada. E, já agora, com uma das melhores cenas de sexo alguma vez filmadas no cinema. 

MacBeth de Justin Kurzel

Shakespeare é repetidamente considerado como um dos maiores, se não mesmo o maior, de todos os dramaturgos (Tolstoy não é um dentre eles, se querem saber). As suas peças de teatro, naturalmente, já foram adaptadas e readaptadas para a 7.ª Arte. Umas com os textos originais completos (Hamlet de Branagh), outras com eles incompletos (Romeo + Juliet de Lurhmann), outras ainda esquecendo o texto do "bardo" mas permanecendo com o enredo (10 Coisas que Odeio em Ti como adaptação do The Taming of the Shrew). Este MacBeth de Justin Kurzel fica-se na segunda categoria e a grande atração reside nos actores que interpretam as duas mais importantes personagens da peça: Michael Fassbender como o protagonista titular e Marion Cotillard como Lady MacBeth, um dos mais emblemáticos personagens femininos da História da Literatura.

Fassbender, aos poucos, transforma-se num actor que ombreia com os melhores - e aqui falo do recente e maravilhoso Daniel Day-Lewis. Quem o viu em Steve Jobs, Hunger ou Shame já sabia do que era capaz e MacBeth, como tantas outras das excelentes personagens de Shakespeare, é um caminho obrigatório para qualquer actor que fale a língua deste dramaturgo. O magnetismo (como alguém meu conhecido chama)  do actor é verdadeiramente incontornável mas ele é também muito mais que isso. Fassbender é capaz de transfigurar-se e afundar-se no personagem. Como o faz neste texto superior. Por seu lado, Cotillard ou é um erro de casting ou a interpretação que o realizador faz do personagem não é particularmente feliz. Lady MacBeth sempre a li como um personagem quase que irrepreensivelmente mau. Claro que não sou estudioso do autor da peça, mas apesar de existir uma espécie de redenção nos seus últimos momentos, até lá ela é uma resoluta e sangüínea sede de poder, a força motriz por detrás do marido moralmente dividido. Cotillard está numa nebulosa terra de ninguém que não ajuda em nada o personagem e a ela própria. O que é uma enorme pena já que  a francesa já provou mais do que uma vez a sua qualidade como actriz.

A realização não oferece rasgos extraordinários mas é segura  na mão e opta, aqui e ali, por opções estéticas que divertem e agarram o espectador menos habituado à poesia de Shakespeare que, sendo maravilhosa, pode ser, para muitos, densa. Em suma, um filme que, apesar das falhas, não deixa de ser um digno acrescento ao panteão das adaptações shakespearianas.  

A força das histórias! - Il Racconto dei Racconti e John From



Hoje vi um delicioso vídeo que analisa em detalhe uma das mais importantes cenas do Vertigo de Hitchcock. Nele, o autor observa que o realizador teria como intenção analisar o poder da narrativa. O potencial de contar uma história é verdadeiramente ilimitado e existe, sob várias formas, em todos os elementos da actividade e criatividade humanas. Desde a pequena e inofensiva mentira até às grandes manipulações políticas. São formas que o ser humano usa para lidar com a realidade, para adaptar-se a ela, mas também para a manipular - o que, aliás, era o objectivo de um dos protagonistas da dita cena de Vertigo. 

As religiões (para quem, como eu, não acredita em nenhuma) são um conjunto de histórias que adquiriram uma tal força que tornaram-se lendas, depois mitos e, finalmente, verdades (desculpem a simplificação). As histórias têm um poder incomensurável e são ubíquas e omnipresentes. Elas tão depressa são elementos do social como do individual. Vejam-se estes dois filmes que vi recentemente. O Conto dos Contos de Matteo Garrone é uma abordagem "tradicional" ao processo de "contar histórias", apresentando três do género do fantástico: uma fala de uma rainha que queria engravidar, obriga o marido a sacrificar a vida na busca do coração de um monstro marinho, come o dito coração cozinhado por uma virgem e, destes eventos, nascem dois gémeos, um da rainha e o outro da virgem; outro é o conto de duas virgens idosas. Uma delas canta como os anjos e é ouvida pelo rei dessa terra, um homem sempre na busca do prazer carnal. Sedento, decide cortejar a dona da voz e convencê-la a dormir com ele. A mais esperta e ambiciosa das duas irmãs, apesar da idade, consegue ludibriar o rei fútil a passar a noite com ela; finalmente, um outro rei tinha uma filha ansiosa por casar mas de quem não queria separar-se. Inventa um desafio impossível para escolher o pretendente mas "sai-lhe o tiro pela culatra" e um ogre horrendo consegue suplantar o obstáculo. Todas as histórias têm uma moral, como muitos destes contos ao estilo medieval a têm, e Garrone consegue construir um mundo diferente da habitual parelha Senhor dos Anéis / Guerra dos Tronos. Passam-se em mundos maravilhosos e estranhos mas as histórias tocam um profundo de verdade.

Telheiras, por outro lado, não é o tipo de terra maravilhosa e estranha que ocorreria a alguém classificar como tal. Contudo, é nela que acontece a história de Rita, uma adolescente de 15 anos que inventa uma paixão assolapada por um homem muitos anos mais velho e romanticamente fotógrafo. João Nicolau, o realizador, a principio opta por uma narrativa relativamente linear mas, no final, embrenha-se no reino da imaginação, o da história que Rita constrói em volta do objecto do seu desejo, de modo a levar a bom porto o que tanto anseia. Histórias são interpretações da realidade e esta é uma das formas que muitos de nós usamos para lidar com algo que desconhecemos ou que queremos e não podemos ter. É o caso de Rita

Dois filmes que, à sua maneira, falam do poder da narração. O primeiro é mais ao meu estilo. O segundo nem por isso. Cada um de nós gosta das histórias que gosta.