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Colecção Harley Quinn da Levoir vol. 2: Miúdas sem Regras de Jimmy Palmiotti e Amanda Conner

Harley Quinn, a namorada do Joker. Foi assim que, em Setembro de 1992, ela foi-nos apresentada no episódio Joker's Favor da série de desenhos animados de TV, Batman, The Animated Series. Voz esganiçada, sotaque sulista, devota ao seu amor. Psicopata, claro - porque quem mais poderia amar um lunático como o Joker? Esta estranha combinação funcionou e ela transformou-se num sucesso. Uma criação original da TV que ganharia tanta fama que passaria para a BD e não o contrário.

Mas esta realidade escondia uma outra, mais negra. Harley era abusada, física e moralmente, pelo Joker. Bem vistas as coisas, não poderia ser outra forma. O Joker é um psicopata obcecado por um sociopata com problemas parentais graves, o Batman. No meio da luta de egos e no meio de uma paixão claramente doentia estava uma rapariga que não era de todo inocente mas era, declaradamente, uma vítima. Muitos foram os anos em que o Príncipe do Crime abusou da sua relação com Harley. Até que algo rebentou. Pode ter sido a amizade que ela cultivou com Hera Venenosa, outra arqui-inimiga do Batman, e que tem uma paixão não correspondida pela nossa heroína. Pode ter sido um bom e velho sentido de amor-próprio, que a fez descolar da personalidade tóxica do Joker e enveredar pelo seu próprio caminho.

O que quer que tenha sido, é nessa circunstância que encontramos Harley nesta colecção da Levoir: livre e dona do seu próprio destino, que é onde ela e todas as mulheres devem estar.

Segue-se uma pequena síntese deste segundo volume e previews.

Harley Quinn: Miúdas sem regras

Russos e ursos, assaltos a bancos, peças de teatro e jogos de Roller Derby. Descoberto o mistério sobre quem lhe tinha colocado a cabeça a prémio, há ainda muito com que Harley Quinn se pode entreter, para variar do seu enfadonho negócio de ser proprietária de um edifício em Coney Island, Nova Iorque!

Sobretudo se conseguir juntar um grupo de amigas e não se deixar limitar por nenhumas regras. Regras que não existem no clube de combate clandestino que Harley descobriu, onde mais ganhas consoante os adversários que derrubares. Com um agente como Sy Borgman, o velho espião cheio de partes biónicas, a representá-la, Harley tem tudo para arrasar… em todos os sentidos.

Neste segundo volume, há ainda espaço para recontar, numa perspectiva diferente, a origem secreta de Harley Quinn, numa história ilustrada por Stéphane Roux.




Colecção Harley Quinn da Levoir vol. 1: À solta na cidade de Jimmy Palmiotti e Amanda Conner

Muitas foram as personagens da BD dos EUA que não começaram nas páginas da 9.ª Arte. Desde os remotos dias das emissões de rádio do Super-Homem na década de 40 que mitologias eram inventadas em outros meios que não o papel e só anos depois passavam para as tiras coloridas dos livros aos quadradinhos. Harley Quinn foi uma delas. A conhecida como "a namorada do Joker" começou na lendária série de TV Batman The Animated Series e no episódio Joker's Favor (setembro de 1992). O que a princípio era para ser apenas uma aparição fugaz, muito graças à força do conceito criado por Paul Dini e Bruce Timm e à voz maravilhosa e única que Arlee Sorkin criou para a Harley, transformaram-na num dos conceitos eternos associados à mitologia do Homem-Morcego. Tão eterno e tão poderoso que existe quem diga que a Santíssima Trindade da DC é agora um quarteto. Quem diria que a vilã apaixonada pelo psicopata obcecado pelo Batman estaria ao lado deste, da Mulher-Maravilha e do Super-Homem?

A primeira vez que a Dra. Harley Quinzel aparece nas páginas da BD é em 1994 e escrita pelo seu criador, Paul Dini, que escolhe contar a trágica transformação de uma pacata psicóloga na psicopata apaixonada pelo Joker. Chamou-lhe (apropriadamente) Mad Love e ganhou um Eisner com esse livro (já publicado pela Levoir). Serão necessários mais uns anos para que Harley migre definitivamente para o universo "normal" de super-heróis da DC. Isto acontece no especial Batman: Harley Quinn, parte de um mega-evento de 1999 chamado No Man's Land - a premissa sendo que Gotham City é isolada do mundo pelo governo dos EUA e passa a ser uma terra sem lei. Finalmente, entre 2001 e 2003, consegue a primeira revista a solo, onde usa o uniforme criado pelos criadores originais do desenho animado e começa a lenta caminhada para transformar-se na princesa da DC (claro que a rainha é a princesa Diana de Themyscira, a Mulher-Maravilha... esperem! A rainha é uma princesa e a criminosa é a princesa? Esta analogia não é lá muito feliz).

Em 2011 a DC decide reiniciar o seu universo de super-heróis do zero e aposta numa nova revista a solo para Harley. A esse "reboot" a editora chama Novos 52 que é onde se passa a fase da anti-heroína que têm em mãos hoje junto com o jornal Público. Com um uniforme mais risqué e escrita por Jimmy Palmiotti e Amanda Conner, a namorada do Joker será catapultada para fora da sombra do companheiro e para o estrelato que merece.

Em baixo segue um pequeno resumo do primeiro volume desta colecção de três e alguns previews.

Harley Quinn: À solta na cidade 

Como é que uma rapariga se pode descobrir a si mesma no meio da confusão do Universo DC? Nada mais fácil que falar com os artistas que a desenham e escrevem, e impor algumas regras! Esta aventura surreal ilustrada por alguns dos maiores nomes dos comics, dá o ponto de partida para a nova vida de Harley Quinn, escrita por Jimmy Palmiotti e Amanda Conner. No início desta nova série, Harley herda de um dos seus pacientes no Asilo Arkham um prédio de habitação e comércio em Coney Island, Nova Iorque, o que lhe dá a oportunidade perfeita de recomeçar a vida longe de Gotham e do Joker.

Mas os impostos e os custos de manutenção do edifício são elevados e as rendas pagas pelos peculiares inquilinos não cobrem estes custos, o que obriga Harley a voltar a trabalhar como psiquiatra num lar de idosos de dia, e integrar uma equipa de Roller Derby à noite, para poder pagar as contas. Se a isto juntarmos os inúmeros assassinos que aparecem, atraídos por uma recompensa de dois milhões de dólares pela sua cabeça e uma rede de antigos espiões do KGB, que vai ajudar Sy Borgman, um agente reformado da CIA, a desmantelar, vemos que a nova vida de Harley está bastante preenchida.





Dark Nights: Metal #2 de Scott Snyder e Greg Capullo



Aviso à navegação: o segundo número do evento de 2016 da DC Comics não é para os que nunca leram nada da editora. A narrativa é alicerçada na sua História, cosmogonia e cosmologia. A referência a eventos passados publicados há muito tempo é constante e pode (e vai) confundir os que não são versados na complexa tapeçaria deste multiverso (e mesmo os que são). Este é um aviso que já tinha feito aqui, quando falei do primeiro número, e continua a ser válido (se não mais ainda) para este segundo capítulo.

Esta também não é uma história para os que gostam das narrativas reais, lógicas e cheias de significado filosófico-existencial. Aqui há, por vezes, coisas que não fazem sentido, momentos de puro ridículo, subtileza narrativa de um Ferrari acidentado na auto-estrada. E há uma outra coisa para quem gosta de super-heróis: puro entretenimento, regozijo em ver os homens de collants em situações escabrosas, ópera pop, explosões, vilões ultra-negros e heróis mega-puros. Tudo é barulho, som e fúria, como numa canção metaleira. Composta por Snyder e Cappulo.

(a partir daqui há muitos spoilers)

A primeira leitura de uma história destas é feita a correr, na ânsia de chegar ao fim, de virar a página e descobrir a próxima surpresa. Existem pormenores que escapam, exigências que não são feitas. Este segundo capítulo conta-nos a perseguição levada a cabo pela Liga da Justiça para capturar Batman, que roubou uma curiosa arma cósmica: o bebé Darkseid. Batman acredita que a versão infantil do Deus de Todo O Mal do Universo DC é a chave para impedir a invasão do Dark Multiverse. Não sabe que está a ser enganado. No final, e pela primeira vez em muito tempo (ou mesmo sempre), o Batman perde e a Liga dos Batmen Negros e Maus Como as Cobras chega com fúria e desespero. Entretanto, sabemos que o vilão-chefe desta saga, Barbatos, conheceu o Cavaleiro das Trevas quando, na saga Final Crisis, escrita por Grant Morrison, Darkseid (ainda não era um bebé) o exila para a Idade da Pedra. No penoso regresso que Bruce Wayne faz para chegar ao presente, Barbatos molda a História do Mundo DC e de Batman de acordo com os seus desígnios bem esconsos. Complicado? Muito! Rebuscado? Sem dúvida! Argumento típico de super-heróis? Oh meus deus... sim! Ou se gosta ou então é melhor nem passar por aqui. 

Imaginem o oposto do que se deve fazer para cativar uma audiência. Tentem ser o mais herméticos possível. Dificultem a mensagem. Isto não deve ser feito, certo? Snyder e Cappulo atiram pela janela o livros de regras dos marketistas e deixam-se levar pela pura geekisse e pelo puro prazer de escrever uma história para eles e para os malucos (como eu!) que sabem destes assuntos mais do que é saudável saber. Pormenores que não interessam a quase ninguém. Mas, no meio de tudo, conseguem entreter e divertir e isso é a única coisa que pode ser esperada de uma história destas. Abandono total.

Subtil como uma fotografia de David Lachappele (tinha de fazer uma referencia mais intelectual para não destruir as minhas credenciais), o número dois de Dark Nights: Metal é entretenimento ao som de guitarra metaleira. Ajuda ser fã à séria da DC? Ajuda! Mas não está na moda aceitarmos "desafios"? Pois eu acho que sim!

Rapidinhas de Cinema - Wind River e Batman & Harley Quinn



Não. Um filme nada tem a ver com o outro. Um é uma narrativa fria e cruel, um faroeste passado nas montanhas geladas do estado de Wyoming. Outro é um desenho animado descomprometido, leve e humorístico. Um é sobre vidas reais esquecidas pela Lei, outro é sobre vigilantes fantasiosos e uma anti-vilã sociopata (e não psicopata, como é, aliás, bem sublinhado pela personagem no filme). Gostei de ambos.

Wind River é a primeira incursão de Taylor Sheridan na cadeira da realização, escritor dos maravilhosos Sicario e Hell and High Water. Estes dois filmes eram já uma subversão de géneros e uma visão desapaixonada e anti-glamourosa de dois mundos muitas vezes vistos de forma leve pelo Cinema. O primeiro descrevia a luta contra o mundo criminoso do tráfico de droga e o segundo sobre a crise financeira de 2008, as suas consequências e enveredava pelo caminho de um heist movie social. Wind River é um thriller policial a início, uma normal descoberta de "quem-matou?", com a participação da polícia local, do FBI e de um wild-card autóctone que acaba por revelar-se como a peça mais importante da investigação. Claro que, como nos provou nos seus dois filmes anteriores, Sheridan usa o ambiente como forma de comentar uma outra realidade. Neste caso, a do isolacionismo. De um local para onde a Lei não estende o seu braço dito longo. Onde a justiça é feita pela fauna, flora e geografia locais. Existe Lei. Mas não a dos homens. A escolha dos dois actores principais, Jeremy Renner e Elizabeth Olsen, prova que estes dois interpretes são capazes de muito mais do (pouco ou nada) que lhes dão para fazer em filmes de muito orçamento (nos Vingadores são criminosamente subaproveitados). Aqui respiram o ar frio do mundo onde as suas personagens passeiam, cada olhar e gesto um reflexo de uma história maior, de universos que colidem com o drama do enredo. Infelizmente, será daqueles filmes que passarão despercebidos nas salas de cinema, sem o merecer.

Longe, muito longe, da narrativa de Wind River está Batman & Harley Quinn, a ultima incursão da DC Comics pelo seu já duradouro universo de desenhos animados. Desde o início da década de 90 que a editora decidiu tentar novas abordagens, mais adultas, pelo mundo ficcional das suas personagens em formato de desenho animado. Começaram exactamente com o Batman, na lendária série de Bruce Timm e Alan Burnett. Foi nesta que o primeiro e Paul Dini criaram Harley Quinn, a namorada do Joker, o arqui-inimigo do Homem-Morcego. A fama desta personagem expandiu-se nas décadas que se seguiram ao ponto de ser a personagem principal do filme Esquadrão Suicida de 2016, com Margot Robbie no papel da anti-vilã. Com a fama no seu pico, Bruce Timm regressa não só à personagem a quem deu forma mas também ao universo onde a criou. Este filme tem como ambiente a série da década de 90, ainda que se assuma como mais adulta e muito menos apropriada a crianças. Enquanto a Marvel continua a apostar num publico jovem, a DC esforça-se para que as suas personagens e histórias reclamem um público mais adulto (ainda que não necessariamente maduro - e isto não é uma critica). Este Batman & Harley Quinn é uma busca nesse sentido e, no que a mim diz respeito, bem sucedida. Há algum tempo que não me ria tanto - mesmo com piadas um pouco, digamos, adolescentes. Esta Harley é mais arriscada e o Batman mais sisudo (mas com laivos de descontracção, o que atesta bem da latitude da personagem). Nightwing, um dos discipulos do Cavaleiro das Trevas, tem também um papel muito importante e revelador. Um filme bastante divertido para fãs e (acho) não só.

Dark Nights: Metal # 1, Review (with spoilers)

It all starts here: DC Comics event Dark Nights: Metal, by the creative team of Scott Snyder and Greg Capullo. It's supposed to be an epic, multiversal roller-coaster ride filled with awe-inspiring moments.  In June and July we were treated with not one but two prologues, Dark Night: The Forge and Dark Night: The Casting, that put all the pieces on the table – or so we thought. The mythology was laid bare to prepare us for what was coming. However, what the authors gave us in this first issue was an even bigger canvas where we will be amazed and entertained in.

(from here on out there will be spoilers)

Let me say one thing before continuing: I’m a big fan of comics in general, super-heroes in particular and DC Comics is my favorite universe of this subgenre. I love the archetypical nuances of its characters and the religion-like cosmology that seems to tie all its stories together. Conscious or unconsciously, some of the storytellers that worked for this company in the past three decades want every single issue of its 75-year-plus history to count for the tapestry that is the DC multiverse. One of the biggest names is, of course, Grant Morrison, but also Geoff Johns, Mark Waid, et al. All of them tried, for lack of a better term, to tie everything together. Now you can add another author: Scott Snyder. He goes into full cosmology mode and it’s a wondrous sight to behold.

I love it when super-heroes go cosmic. Don’t get me wrong, I want to read Batman and Daredevil as much as the next guy, the street-level story, but when these characters travel to the end of time, battle impossibly-dark-and-evil-Gods and unravel reality, that’s when I love them the most. That’s why Morrison’s JLA is one of my all-time favorites. Speaking of the mad Scottish writer, he is one of the Snyder's spiritual gurus. He gets a lot of love in this first issue. Be it the Multiversity Map or the reference to Batman’s travel to the far past at the end of Final Crisis, Snyder references these cosmic stories in big and revealing ways. Hawkman’s lore is also a huge part of what it’s trying to be achieved here – don’t forget that this comic is called Metal and one the most important parts of it is the Nth Metal

It’s, of course, still too early to judge the story's quality. We’re at the beginning, but one thing is certain: this is not for the initiated in DC mythology. You have to be knee-deep into a lot of the cosmology minutiae that is part and parcel to this universe (or multiverse, if you want to be accurate). That is, of course, part of its charm but it will, for those less adventurous, be a strenuous read. Think of it like I did when I was on my early teens and read Crisis on Infinite Earths: marvel at the colorful menagerie of characters and geographies that populate the page; absorb every detail with child-like awe; maybe if you drop the adult-vision you’ll be rewarded.

Finally, that last page (huge spoiler ahead). Super-heroes comics revel in the use of surprise endings. Metal has a doozy of an ending, similar to last-year’s DC Rebirth Special: Neil Gaiman’s Sandman pays a visit to Batman – the Daniel version, not Morpheus. It is very similar to adding Alan Moore’s Watchmen to the regular DC multiverse (on the above mentioned DC Rebirth) but not as radical, though some people seem to think so. Don't get me wrong, it’s a huge thing and if done right adds gravitas to the story (I’ll judge its quality in the end). But, if you were paying attention to Grant Morrison’s Multiversity Map, you’ll find that the Endless and Sandman were already an integral part of DC’s cosmogony. Furthermore, Daniel was also used in Morrison’s JLA. So, there’s that.

Scott Snyder and Greg Capullo promised us a grand ride. If the following chapters are to be judged by this one, we’re in for one. So, please, fasten your seat belts. 

Batman, Uma História Verdadeira de Paul Dini e Eduardo Risso na Colecção Novelas Gráficas III da Levoir/Público

(o Acho que Acho teve a honra de ser convidado para fazer a introdução deste volume)


Batman, Uma História Verdadeira de Paul Dini e Eduardo Risso está nomeado para o Prémio Eisner como melhor história autobiográfica 2017, poderá ser adquirida a partir de 21 de Julho, em versão de capa dura, pelo PVP de 9,99€ em conjunto com o jornal Público.

Paul Dini é o criador de Harley Quinn, a carismática namorada de Joker, que esteve em grande destaque no filme Esquadrão Suicida, Batman, Uma História Verdadeira. Eduardo Risso, desenhador argentino já conhecido do público português graças aos títulos editados pela Levoir, como Parque Chas e Batman Noir, dá aqui provas de uma versatilidade inesperada, adaptando o seu traço às necessidades específicas dos diferentes momentos da história. Mestre do preto e branco, como Batman Noir demonstra à saciedade, Risso ocupa-se pela primeira vez também da cor de uma história que desenhou, com resultados deslumbrantes, mas também extraordinariamente eficazes em termos narrativos.

Esta não é uma narrativa comum. É uma novela gráfica, contada pelo próprio autor a partir de um momento crucial da sua vida. Em 1993 ele foi brutalmente espancado e deixado em estado crítico perto de sua casa em West Hollywood. Além dos danos físicos que as agressões deixaram, Paul Dini lutou com as consequências psicológicas e o desafio de continuar a escrever sobre Batman e seus vilões.

A utilização dos personagens de Batman são a chave para o sucesso desta obra. Mesmo que esta história seja sobre a ideia do Batman, isso não significa que o Cavaleiro das Trevas e dos seus inimigos não apareçam na história como personagens reais. Cada vilão de Gotham aparece como uma manifestação da personalidade e psique de Paul Dini. Pinguim representa a tentação para beber álcool. Espantalho encarna o terror que Paul encara durantes os dias. Joker é a voz de cada pensamento sombrio que representa um atraso para a sua vida e carreira. Batman representa a esperança que ele pode inspirar nas pessoas que passam pelos momentos mais desesperantes.

A sinergia entre a escrita de Paul Dini e a arte de Eduardo Risso é impressionante. Sendo o resultado uma obra que fica entre uma realidade aterradora e momentos surreais e fantásticos. É uma obra de uma sensibilidade ímpar. É uma leitura obrigatória para todos os que são fãs de Batman. Mais do que isso, é uma leitura essencial para quem precisa urgentemente voltar a inspirar-se na vida.





Colecção No Coração das Trevas DC - volume 6: Joker & Harley Quinn

No sexto volume da colecção No Coração das Trevas DC, hoje nas bancas junto com o jornal O Público,  vão conhecer um amor... louco. 

Joker & Harley Quinn: Amor Louco, conta a história de Harley, uma antiga psiquiatra que trabalhava no Asilo Arkham, onde o Joker foi seu paciente. Habilmente, ele consegue manipulá-la emocionalmente e fazer com que se apaixone por ele, levando-a a ajudá-lo nos seus planos malignos, ganhando assim um novo aliado na luta sem fim que o opõe a Batman.

O argumentista e produtor televisivo Paul Dini, e o ilustrador Bruce Timm, criadores da série televisiva Batman Adventures - onde Harley Quinn se estreou - assinam esta história, que transpõe para o papel a sua famosa história animada, e outras duas histórias incluídas neste volume, que traz o Batman do mundo dos desenhos animados para a BD.

Em 1994, Amor Louco recebeu um prémio Eisner, sendo considerada a Melhor História desse ano. Também Frank Miller a considerou como uma das melhores histórias do Batman que já leu.






Colecção No Coração das Trevas DC - volume 4 Catwoman

Esta semana o volume da colecção “No Coração das Trevas DC” é dedicado à Catwoman alter ego de Selina Kyle. Catwoman é uma personagem da banda desenhada, criada por Bill Finger e Bob Kane, teve a sua primeira aparição na edição número 1 de Batman, em 1940, identificada como "A Gata". A Mulher Gato tem sido tradicionalmente retratada como uma vilã e adversária de Batman, mas também por manter uma relação ambígua com este.

Em Catwoman: O Grande Golpe de Selina, Selina Kyle decide abandonar a vida do crime, mas para viver honestamente vai necessitar de uma fonte de rendimento, por isso planeia um último golpe. O alvo escolhido é um comboio que vai carregado de dinheiro da Máfia.

O que de início lhe pareceu um golpe perfeito pode na realidade transformar-se num golpe fatal levando-a à morte.

É sem dúvida uma bela história a ser lida já hoje, dia 30 de março, em banca com o jornal Público pelo PVP de 9,90€.



O que vou lendo! Injustice Gods Among Us, Year Two, The Complete Collection de Tom Taylor e vários

A queda de um anjo, o maior do universo da DC, continua. Depois de aqui vos ter falado do primeiro ano, continua o conto de um mundo alternativo onde o Super-Homem, mercê de uma tragédia que recaiu sobre a sua família, transformou-se no maior vilão da História. Como todos os vilões, ele não se vê como talo. Ele o salvador, o polícia da ordem que imporá regras e paz num mundo caótico e sem justiça. Heróis juntam-se à sua cruzada, outros opõem-se. Estes últimos inspirados e liderados por Batman, anátema do sonho despótico. Injustice Gods Among Us é inspirado no jogo de computador com o mesmo nome e conta os eventos que deram origem ao futuro distópico nele relatado.

Prosseguindo o trabalho do primeiro ano, Tom Taylor continua a escrever as linhas trágicas deste mundo negro. O escritor australiano segue a mesma fórmula, confortando-se no conhecimento das personalidades destes ícones da DC, ao mesmo tempo que os interpreta à luz de um enredo e de um objectivo: contar uma história empolgante e, desde o primeiro capítulo, cheia de surpresas. Fazendo pleno uso das premissas do jogo e da liberdade que as mesmas lhe permitem, Taylor deixa o leitor (principalmente se não tiver jogado) viciado e agarrado ao virar de página. O que vai acontecer a seguir é sempre a pergunta. E raramente ele nos desaponta.

O enredo deste segundo ano trás-nos o envolvimento do Corpo dos Lanternas Verdes (sigo a tradução da Levoir) e dos seus mentores e criadores, os Guardiões do Universo, seres omnipotentes e omniscientes quase tão velhos quanto o universo. Como todos os fãs da DC sabem, os Lanternas Verdes são os polícias do universo e a ascensão fascista de um actor tão poderoso como o Super-Homem obriga à sua intervenção. As consequências acontecem à escala cósmica.

Injustice Gods Among Us é divertimento para fãs (e não só) da DC Comics. É descomprometido e empolgante. Não posso pedir muito mais disto. Venha o ano três.

O que vou lendo! Dark Night, A True Batman Story de Paul Dini e Eduardo Risso

A publicação de biografias ou autobiografias em BD é, há muito tempo, uma tradição. Obras impares como Maus e Blankets nasceram desta inclinação e transformaram de forma perene o panorama da arte. Quer se queiram, quer não, também os super-heróis fizeram o mesmo, quer na dita BD de "qualidade" quer na outra, também dita, a da "cultura popular". O que raramente acontece (a minha memória não ajuda) é a junção das duas, como é o caso deste Dark Night, A True Batman Story, escrita por Paul Dini e desenhada por Eduardo Risso.  

Desenganem-se, dos que ficam curiosos pela leitura, que irão ler uma obra de acção e luta entre o Cavaleiro das Trevas e os seus muitos e coloridos adversários. Não que não possamos ver e apreciar o dedo do brilhante Risso a desenhar Batman, Joker, Hera Venenosa, entre muitos outros dos personagens míticos da mitologia deste personagem da DC Comics. Mas este é um livro sobre Paul Dini,  escritor de BD mas também da afamada série de desenhos animados Batman, The Animated Series, considerada por muitos fãs como uma das melhores séries deste estilo a grassar as telas da TV. Esta é a história da sua vida e de como um encontro fortuito e violento, quando escrevia para a série em princípios da década de 90, marcou-o de forma indelével.

Publicado pela DC e pela chancela da Vertigo, Dark Night é uma obra onde Dini escolhe a BD e os seus personagens favoritos desta arte para, corajosamente, expor a sua vida. A imaginação que o acompanha, diz ele, desde a infância, serve de conselho e de coro para os acontecimentos trágicos (ou não) da sua vida, descortinando-os de forma cândida e aberta. A honestidade é a chancela desta BD que não desvia-se do ridículo, abrindo espaço para que nós, leitores, nos identifiquemos de forma mais ou menos forte com Dini. A DC deixa que os seus muitos protegidos personagens funcionem como catalisadores e, ao mesmo tempo, exorcistas dos demónios que assolam a vida do escritor. Acredito que apenas alguém como Dini o possa fazer, tendo em consideração que já tanto contribuiu para a editora, principalmente com a criação de um dos seus mais famosos personagens: Harley Quinn, namorada do Joker e estrela do filme Esquadrão Suicida.

O trabalho de Risso é multifacetado, escolhendo estilos diferentes quando cada situação o impõe e justificando o porquê se ser um das mais requisitados e interessantes desenhistas da BD da actualidade. A parceria que enceta com Dini, tal como acontece com Azzarello (o de 100 Bullets e agora de Moonshine, este última da Image), é simbiótica. Risso não trabalha apenas com os escritores, é um dos escritores. 

Honesta, disfuncional, corajosa. Adjetivos sempre apropriados para uma autobiografia e também para este Dark Night, A True Batman Story de Paul Dini e Eduardo Risso.

O que vou lendo! Injustice Gods Among Us, Year One, The Complete Collection de Tom Taylor e vários

Ideias simples e novas são as mais difíceis. A frase "já tudo foi inventado" é provável que seja verdadeira - mas tenho dificuldades em acreditar. Desviar-nos para um novo ponto de vista poderá ser o proverbial "ovo de Colombo". Basta inclinar a cabeça, a perspectiva muda e conseguimos algo inovador. Basta abraçarmos a nossa personalidade para vermos algo nunca visto. Alan Moore, o famoso escritor (também) de BD, conseguiu-o na década de 80 e em duas obras consideradas essenciais: Miracleman e Watchmen (ambas publicadas em Portugal pela GFloy e Levoir, respectivamente). Moore importou o "mundo real" para o do super-heróis e transformou-o. Desde então, muitos foram os autores que de alguma forma o copiaram, e outros tantos os que, em oposição, tentaram repor o maravilhamento da fantasia juvenil. Frank Miller, escritor e desenhador americano de Comics, fez algo a uma escala diferente mas que, a par do anterior autor, também significou uma mudança de paradigma na BD dos EUA. Injustice Gods Among Us é um estranho filho das sensibilidades e histórias destes dois gigantes da 9.ª Arte.

Injustice Gods Among Us nasceu de um jogo de computador com o mesmo nome e trata-se de uma reinterpretação pós-apocalíptica do universo dos super-heróis - é a Chris Claremont e a John Byrne que deve-se a primeira iteração destes distopias com o seu X-MenDays of Future Past, já transposto para o cinema. Nestas histórias, que de serem já tantas são parte integrante da mitologia dos super-heróis (ou um cliché, se preferirem), os personagens vivem numa paisagem subjugada a um dos seus inúmeros inimigos (X-Men: Age of Apocalypse, por exemplo), ou são eles próprios os causadores desse futuro distópico (Kingdom Come). Esta obra está integrada na segunda categoria. Neste universo alternativo, e na sequência de um evento catastrófico, o Super-Homem transforma-se num dos piores vilões da História. Constituem-se facções, uma de apoio ao Homem de Aço e outra contra, liderada por Batman - reflexos de Frank Miller e do seu Dark Knight Returns. Esta queda do anjo evolui para uma cruzada do Super-Homem e dos seus aliados para livrar o mundo de todos os conflitos, uma empreitada cheia de boas intenções e um caminho que apenas pode levar à derrocada moral dos envolvidos - pequenas inspirações de Watchmen.

Ao contrário da seminal obra de Alan Moore, Injustice Gods Among Us de Tom Taylor afasta-se (mas não totalmente) da profundidade intelectual e escolhe o espectáculo pirotécnico, o enredo surpreendente e a força das personalidades destes ícones da BD dos EUA. As versões dos personagens nem sempre são facilmente reconhecíveis para os fãs mais radicais (a queda do Super-Homem parece precipitada e a Mulher-Maravilha nada tem a ver com versões mais consensuais) mas não deixa de ser uma interpretação valorosa e, acima de tudo, cativante. Virar a página com sofreguidão para descobrir "o que vem a seguir" é um dos maiores atractivos desta série e do seu primeiro ano, compilado neste único volume. Não deixa de ser uma versão negra do universo DC, onde é difícil conseguir encontrar luz de esperança por detrás de motivações tão despóticas e sombrias. Contudo, os fãs da DC anseiam por este tipo de versões - aliás, para o bem e para o mal (mais para mal, pelo que dizem mas eu não sou um deles), foi desta visão que Zack Snyder partilhou para conceber o seu Batman v Superman. É óbvio que o prazer desta obra muito se deve à familiaridade que o leitor tem com a DC Comics mas, mesmo que tangencialmente, todos temos uma ideia de quem são o Super-Homem e o Batman. Conhecer este dois é ponte mais que suficiente para embrenharem-se na história.

Injustice Gods Among Us pode ser e é uma visão sombria do universo da DC, mas, devido a um enredo com muitas surpresas e a um conhecimento único das personalidades destes personagens, transforma-se numa leitura viciante. 

Libertem o Geek! - As Crises Infinitas!


(para o Gonçalo e o Vasco, que percebem o porquê deste post)

Um amigo que, como eu, é fã do universo de super-heróis da DC Comics disse-me uma vez e parafraseio: "parecem estar a repetir sempre as mesmas histórias, mas a gente gosta!".  Achei lindo, naquela forma que apenas os fãs podem achar lindo. Aqueles que adoram certas coisas de forma irrepreensível. Não falo de saber todo e qualquer pormenor do multiverso da DC (se sabem o que é o multiverso da DC parece-me, contudo, que estão no bom caminho). Não falo de coleccionar todas as revistas, de possuir saber enciclopédico sobre os heróis, os vilões e a geografia - ainda que possa ajudar. Falo, como sempre quando refiro estas paixões, de gosto e de amor. De estarem a borrifar-se para quem não aprecia, de ficarem entusiasmados de forma infantil, juvenil, imatura (como quiserem), com um desenvolvimento de uma história, com o aparecimento inesperado de um personagem que amávamos e estava fora de cena há muito tempo. Mas também é ficar irritado quando algo que se adora já não tem o mesmo lustro, está chato e aborrecido. Pode também ser esperar ansiosamente pela estreia do Batman v Superman, mal conseguir aguentar a estreia da Wonder Woman em 2017 e ficar entusiasmado com a sequela do Man of Steel do Zack Snyder.

Recentemente, essa nossa editora favorita decidiu renascer. Chamou-lhe, de forma pouco imaginativa (ou será pós-moderna?), Rebirth e, numa revista escrita pelo grande Geoff Johns e chamada de DC Rebirth, devolveu aos fãs (ou começou a devolver) o universo de que tinham saudades. Já existiam pistas no Multiversity de Grant Morrison e na Justice League: Darkseid War também de Johns, mas é neste Rebirth que a editora assume o "erro". Erro porque esta história de Johns é um pedido de desculpa pelos mais recentes anos da DC mas também algo mais meta-textual: uma reflexão sobre o mundo dos super-heróis dos EUA pós-Watchmen, a seminal obra de Alan Moore e Dave Gibbons.  Mas não é sobre isto que vos queria falar.

Desde 1986 que a editora repete a mesma história de forma cíclica e gere as expectativas dos seus leitores de maneira quase cruel. Nesse ano fundiu o seu multiverso num único mundo na conclusão da Crise nas Terras Infinitas e este evento parece, desde então, reger todos os outros. O que, a nosso ver (sim, o dos fãs), é lindo e pode acontecer quantas vezes a editora quiser. Foi a Crise Infinita, a Infinita Crise, a Crise Final, o Hipertempo, o 52, a Multiversidade, agora o Renascimento. Iterações do mesmo conceito, teases de quem sabe que basta vestir uma lingerie comprada na loja dos trezentos para nos fazer salivar litradas.  Mas no meio de tanto entretenimento pop existe também algo mais profundo - pelo menos para nós. Uma hiper-história que começou em 1938 com a publicação do Super-Homem, que foi evoluindo num misto de atabalhoado, orgânico e ...vejam lá bem... pensado. Que continua a crescer e a acrescentar camadas cada vez mais ricas,  ao ponto de parecer estar criado um universo (um multiverso) que ...nós temos a certeza... vive lá fora algures, separado pela vibração da imaginação. É world-building mas também é uma filosofia. Quem olhar para a estrutura do multiverso da DC criada por Grant Morrison vê uma Mandala e vê um Belo. Não seria fantasticamente terrível que existisse, perdidos nas infinitas e prováveis realidades, um Darkseid, uma Source Wall e uma Speed Force? Mas divago!

A DC repete, para nosso bel-prazer, a História do Multiverso e, em cada nova variação, se estávamos perdidos voltamos a ela e, se nunca a abandonámos, somos justificados. Por isso, quando neste Rebirth vejo plantadas as sementes do regresso de algo que adoramos só posso escrever algo tão inútil quanto este post.  

"Parece estar a repetir sempre as mesmas histórias, mas a gente gosta!" - disse o tal meu amigo. Sim, é lindo e nós adoramos!

Batman, The Killing Joke - The Movie de Sam Liu

Pelo que se vai dizendo na internet, este filme tem sido alvo de alguma polémica, orquestrada pela comunidade que lê BD de super-heróis. Para os restantes, para as pessoas que não devoram nada da 9.ª Arte, que são poucas, ou de super-heróis, que são ainda menos, estes são assuntos que não interessam rigorosamente nada. 

A Banda Desenhada original de Batman, The Killing Joke é o equivalente a uma lenda. Escrita por um dos seus maiores escritores, Alan Moore, e desenhada por um dos seus mais prestigiados desenhistas, Brian Bolland, é o relato definitivo (?) de uma das maiores rivalidades da mitologia dos super-heróis: Batman e Joker. Hoje em dia, estas são figuras suficientemente conhecidas (por causa do Cinema) para que mesmo os que nada lêem de BD não sejam indiferentes aos nomes. A obra apareceu naquele que é considerado um dos períodos áureos desta Arte em geral e da produzida nos EUA em particular. Um período que iniciou-se no principio dos anos 80 pelas mãos deste mesmo escritor no seu Swamp Thing, continuado pelo mesmo (no seminal Watchmen) e por tantos outros autores, e acabado algures pelos fins da mesma década. Nesta época nasceu este Batman, The Killing Joke (publicado em Portugal pela Levoir - procurem-no no volume dedicado ao Joker na Colecção da DC Comics). Imediatamente transformou-se num clássico, pela arte dos criadores, pelo tema que abordou e a forma como o abordou. Uma visão madura e complexa da rivalidade e de como a mesma poderia ser vista pelo prisma da transversalidade, do transporte para o "mundo real". Resumindo, um livro do caraças!

A adaptação poderia seguir um de dois caminhos: fiel, palavra a palavra, estilo a estilo, enquadramento a enquadramento; desvio do original. O que este desenho animado fez foi as duas e aí reside parte do descontentamento (para esclarecer as coisas, eu gostei bastante do filme). É dividido em duas partes, uma primeira focada em Barbara Gordon, a Batgirl (a parte original do filme e a mais criticada), e uma segunda que é, então, a adaptação propriamente dita. Esta segunda segue de forma bastante fiel a obra, recriando enquadramentos, diálogos e mesmo o estilo de Brian Bolland, numa passagem fiel que tem tudo para agradar aos fãs e não só. Apercebemos-nos do gigantismo das palavras de Moore e dos desenhos de Bolland, que transformam-se em falas e movimentos sem soluços e com o alcance e a qualidade reservados às grandes obras de Arte. Chegamos a perguntar porque não foi isto feito mais cedo e para quando uma adaptação desta categoria para o Cinema em live-action. As vozes e interpretações são sublimes e acertadas. Tudo funciona. Não é, obviamente, a BD, mas é uma forma de a passar para a 7.ª Arte.

Para muitos, o problema reside na primeira parte, a que perde um pouco de tempo a tornar relevantes (para os que não lêem BD) os eventos que acontecem a Barbara Gordon (spoiler): ela é baleada pelo Joker e perde o uso da suas pernas. O "prólogo" é escrito por Brian Azzarello, conhecido dos leitores de BD por obras como 100 Bulllets ou uma recente e aclamada interpretação da Mulher-Maravilha. Azzarello é famoso por visões urbanas, noir e adultas dos personagens (seus ou de outros). É também conhecido por uma personalidade irascível, que raramente pede desculpas, dono de uma honestidade desarmante para uns e refrescante para outros (sou dos últimos e já fui alvo dela).  A sua leitura desta Barbara Gordon/Batgirl é tudo isso e muito mais. Acontece que a personagem, nesta leitura, exibe uma sexualidade activa e adulta (outros dirão outras coisas) e ocorre uma cena em particular que deverá ter deixado alguns desarmados e relutantes. Nada do que acontece choca-me e vejo-o apenas como o quebrar de algumas barreiras que muitos consideram invioláveis, as da natural revelação que os super-heróis são seres sexualmente activos (nada que Alan Moore, por exemplo, já não tenha feito). Claro que a interpretação de Azzarello não se cinge a isso e desenvolve a personalidade de Barbara para que nós, espectadores, sintamos o que o Joker acaba por lhe fazer. Para algo que é um desenho animado é, a meu ver, um passo em frente, principalmente para os habituados a uma dieta Disney (quem vê Anime sabe que existem outras gastronomias, para continuar na metáfora).

Este é, para mim, um filme interessante e uma interpretação válida da obra, acrescentando camadas que apenas enriquecem um dos personagens da história. É melhor que a BD? É claro que não, mas que adaptação é melhor que o original? (calma, eu sei que isto é uma discussão complexa e longa).

Batman v Superman, Dawn of Justice Ultimate Cut de Zack Snyder


Quem lê regularmente este blog sabe do amor que dedico aos personagens da editora dos EUA, a DC Comics. É dela que vêm o Super-Homem, o Batman e a minha personagem favorita de BD: a Mulher-Maravilha.  Quando o filme Batman v Superman (BvS) saiu nos cinemas no passado mês de Março fui dos que o defendeu com unhas e dentes e sangue e suor. Até à inconsciência da razão. Na mais profunda honestidade, não conseguia perceber os seus detractores. Assumo sempre que, no que respeita a estas coisas da Arte, tudo resume-se a gostos e, como tal, cada qual tem o seu. Assim é a democracia. Assim é a subjectividade. Vi o filme várias vezes no Cinema (algo que nunca tinha feito e, portanto, assumo algum militantismo pueril) e mal soube da meia hora adicional desta versão Ultimate Cut não pude conter o entusiasmo e a expectativa de a ver. O filme teria agora três horas e mais três horas tivesse e eu as veria com prazer inabalável.

O que escrevo a seguir sei que parecerá paradoxal mas, acreditem, não é. Ou é, porque o amor é assim. Eu considero o BvS uma obra-prima. Este Ultimate Cut consegue melhorar o que (para mim...cego) dificilmente poderia ser melhorado. Li as criticas ferozes em relação à estrutura narrativa da versão das salas. Que era negra demais. Que era confusa. Rápida. Que o confronto entre estes dois ícones maiores da BD não fazia sentido. Com certeza que, para muitos destes, dificilmente esta versão fará algo para mudar a sua opinião. Continua a ser negro, mas este não é um filme para crianças e esta versão assume-o (ainda mais) frontalmente. Não existe incremento de violência que justifique a classificação maiores de 16 ou 18 mas a complexidade do argumento e dos conceitos arquetípicos  é ainda mais evidente.  A morosidade do enredo é um teste à paciência de quem está habituado a outros vôos (duas horas quase sem nenhuma acção de super-heróis? a Disney passava-se). 

O enredo que dizia respeito ao plano de Lex Luthor era confuso, ou melhor, rápido demais. Esta versão não só corrige isso como acrescenta camadas que o transformam em algo genial e labiríntico.  Muito do que era deixado à percepção do espectador não o é e o filme ganha com isso. Outra das importantes vitorias desta versão de realizador (Snyder ganha a batalha com os produtores que o forçaram aos cortes e legitima a sua versão) é também o papel do Super-Homem/Clark Kent e das suas motivações para confrontar animosamente o Batman. Boa parte das cenas cortadas dizem respeito a este personagem e à investigação jornalística do Cavaleiro das Trevas. O filme, com elas, ganha corpo e equilibra o pendor narrativo que se inclinava para o mais famoso e lucrativo Batman.

Existe uma cena, essa necessária do ponto de vista deste universo partilhado, que trata da introdução do vilão do próximo Justice League: Steppenwolf, general dos exércitos de Darkseid. Dirão: "para quê? Parece que estão a fazer trailers para os próximos filmes". Não sei se o disseram também acerca de quem introduziu este conceito de universo partilhado no cinema, a Marvel, mas, acima de tudo, tenho a dizer: quem lê BD de super-heróis está mais que habituado a este tipo de narrativa. Não é perfeita e pode ser irritante (como eu já aqui o advoguei várias vezes) mas também pode vir de um lado de qualidade, de pathos, de querer construir uma saga mais ampla, como é claramente o caso. São novos mundos no Cinema. Aprendam com eles e, de futuro, pode ser que alguém se sinta inspirado a criar filmes mais ao gosto de outros. 

Um filme que melhora a perfeição. Que mais posso pedir? Venham todos os trailers que se seguem.

Amor é amor! - Batman vs Superman: Dawn of Justice de Zack Snyder




(sem spoilers)

Amor. Não se explica, aceita-se. Talvez não pelos outros mas sim por quem está apaixonado. É diferente da paixão. Esta é fugaz, transitória. Amor é duradouro. O meu dura há quase 40 anos. O pelos super-heróis em particular e o pela BD em geral. 

A combinação de um amor de infância, de uma predilecção pelos personagens da DC Comics, de um favoritismo pela Mulher-Maravilha formaram em mim uma tempestade ideal, uma expectativa ao rubro. Era impossível não estar assim. Não há pendantismo, maturidade ou refreio que sobrevivam.

Acabei de ver o aguardado Batman vs Superman: Dawn of Justice, sequela de um favorito pessoal, Man of Steel de 2013 (não me sacrifiquem mas de facto adoro este filme). A DC Comics/Warner Bros querem inaugurar o seu universo cinematográfico, equivalente ao da Marvel, com este BvS. É também a primeira vez que os três maiores arquétipos da mitologia dos super-heróis, o Super-Homem, o Batman e a Mulher-Maravilha, encontram-se no grande ecrã.  A expectativa de quem fez e de quem vê era enorme. Para mim era gigantesca. E então? O veredicto? Vale a pena?

Em uma palavra: adorei.

E agora o resto. Este não é um filme perfeito, longe disso. O segundo acto parece demasiadamente ocupado, com pormenores que aparentam encavalitar-se uns sobre os outros. Existem várias histórias a serem contadas mas que, num terceiro acto, acabam por congregar-se num todo coerente. Existe um momento em particular em que, de repente, passa a fazer sentido. O caminho até ele foi tudo menos fácil e muitas foram as vezes em que receei por este filme que tanto esperava.

Os personagens. É sempre sobre eles que se aguenta o edifício da história. É particularmente surpreendente o Lex Luthor de Jessie Eisenberg, uma das vitórias do filme. Os trailers não deixavam adivinhar a complexidade psicopata e quebrada da personalidade do maior inimigo do Super-Homem.

Os personagens titulares são menos desenvolvidos mas a realidade é que não só já tivemos vários filmes do Batman como o Filho de Krypton foi interessantemente desenvolvido no Man of Steel. Neste BvS temos o prazer de assistir ao confronto ideológico entre os dois baseado numa das reacções mais humanas que pode haver: a do medo.  É sobre o medo do desconhecido, o que faz homens bons fazerem actos hediondos, que erguem-se as diferenças entre estes dois maiores arquétipos da mitologia americana. É esse sentimento que impele o Batman a fazer algo que não é esperado (e para muitos, especialmente os que não conhecem tanto a BD, faz confusão eles sequer terem diferenças). No final, há algo que os une e esse é um dos grandes momentos da história do filme (já agora: Affleck vai maravilhoso).

As mulheres de BvS são um outro triunfo. Lois Lane tem muito mais a dizer do que apenas o papel de dama em apuros. Sobre ela e sobre o amor que tem pelo Super-Homem assenta boa parte do que representa o Homem de Aço para este mundo ficcional e para mim, como amante do personagem.

A Mulher-Maravilha. A ansiedade de 30 anos com que esperava por este filme muito se deve a ela - estamos a falar de um dos meus personagens favoritos de BD. Todos os momentos em que aparece são vitórias da qualidade do personagem e das escolhas que fizeram.  Não é tanto a imagem inocente que aprendi a gostar com George Pérez mas uma milenar guerreira marcada por um século de confrontos num mundo humano que desconhece. O seu sorriso no meio da batalha climática é também um dos pontos altos deste filme, algo que lançou arrepios pelo corpo deste fã confesso - esse e a reunião, num único enquadramento, da Santíssima Trindade da BD (na palavra de um amigo meu: Mítico).

Este não é um filme fácil. É negro. É violento. É tudo o que a Disney/Marvel não nos têm habituado. O irónico é que esse lado mais obscuro dos super-heróis seja contado pela editora que os criou originalmente. A Warner e a DC arriscam muito porque estão a ir contra-corrente (se bem que Deadpool também o fez) e isso poderá não ser para todos os gostos. Temo que os resultados não sejam os melhores (mais ainda tendo em conta as críticas negativas que têm surgido). Por outro lado,  como fã da DC Comics, toda a mitologia deste universo é-me familiar e, claro, não o é para a larga maioria das pessoas. Existem inúmeros pormenores que irão passar ao lado de muitas pessoas mas isso não faz deste um melhor ou pior filme (ainda que tenha adorado, entre outras, a sequência do futuro).

Em suma, não teço confabulações sobre a subjectiva qualidade ou sobre a relevância e a posição deste filme na História do Cinema. Gostar ou não gostar deste filme tem a ver com puro prazer, que pode ser de entretenimento, intelectual ou ambos. Não é obrigatório gostar, como não o é para nada em Arte. Falo por mim e apenas por mim quando digo que amei este Batman v Superman  e não serei menor ao afirmar que por vezes chorei.